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Foureaux

Espaço para explanação, discussão e expressão...

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09
Nov20

Capítulo de livro II

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Não sei dizer quanto tempo se passou desde que entrei na sala semiescura. Não estava nervoso, nem irritado. Curioso, essa é a palavra. Curioso. Fiquei andando de um lado para o ouro esperando que alguém entrasse. Nada. nenhum barulho. Nada. Cansei de ficar andando e me sentei. De repente, do nada, talvez pelo ócio, lembre-me de Nelida. Aquela balzaquiana de saias floridas, perfume doce maquiagem carregada, um tanto oleosa. Sua figura era... era... Exuberante. Não sei dizer outra coisa. Francófila. Uma dos poucos brasileiros que conseguiram defender uma tese de Estado em Paris. O ciclo romanesco dos Rougon-Macquart. Mais de uma dezena de romances. Pastas depositadas na Biblioteca Nacional de Paris, como parte do acervo do escritor francês Émile Zola. Um feito acadêmico e tanto. Ao lado de outras tantas balzaquianas que foram para a França e escreveram apenas trabalhos de conclusão de troisième cycle universitaire e voltaram para pindorama arrotando doutorados (havia um acordo entre os dois governos para o reconhecimento do trabalho de conclusão do  troisième cycle universitaire como tese de doutoramento. E escreveram sobre autores brasileiros. Assim fica fácil. Nelida não. Ela escreveu em Francês, sobre escritor francês. Tese original. Mas o que mais chamava a atenção eram as saias estampadas com flores enormes, coloridas, cores quentes. E o perfume adocicado meu Des. Ela me emprestou um livro. Não havia tradução para o Português. Livro raro. Fiz uma cópia e antes de o devolver fui roubado. Deixei a pasta no carro da Socorro, enquanto tomávamos um chope, sábado à noite. Pronto! Chegamos no carro, porta arrombada e nada de minha pasta. O livro de Nelida dentro. Ela nunca me perdoou. Fiz uma encadernação com capa dura da cópia, mas nada. Ela não gostou pedi desculpas. Ela deu. Mas não aceitou Anos depois cortou um artigo meu numa publicação coletiva. Questionei. Ela argumentou que meu texto ia ficar deslocado em meio a outros de pior qualidade. Desculpa esfarrapada. Fez um biquinho, bem à francesa, deu atenção às celebridades acadêmicas que a cercavam e tietavam. Foi-se. Nunca mais a vi. Ela não perdoou. Soube que sofrera um acidente e quase perdera a vida. Depois disso. Nada. Nenhuma notícia a mais. Ela não me perdoou. O tempo passa e nada de acontecer alguma coisa. Não sei por que me lembrei dela. Casualidade. Talvez por conta do incidente do assalto. Talvez por conta da cara da freira de sorriso amarelo. Talvez por conta da careca do homem de branco que abiu a porta do salão em que estou. Seria um enfermeiro? Como saber? Não tinha a mínima ideia de como fui parar naquele lugar. Não havia barulho e nada. As pessoas que apareciam eram, todas elas, calmas e educadas. Nada de gritos, gestos abruptos, caretas e ordens. Nada. Seria um hospital? Como saber? Ali fiquei, quieto. E a mesma voz chamou meu nome. Respondi.

“Sabe que dia é hoje?”.

Não sabia.

“Sexta-feira. Você veio para cá anteontem. Desacordado. Dormiu por mais de 30 horas. Parecia mesmo cansado.”.

Não me lembro de nada disso, repliquei. Confesso que estou um pouco curioso. Como me sinto bem, a curiosidade não me incomoda.

“Você foi encontrado em sua casa. Desacordado. O computador estava ligado e, aparentemente, você escreva alguma coisa”.

Não me lembro disso também. O que eu escrevia?

“Uma tese”.

Então estou me doutorando?

“Não”.

Escrevia a versão final, depois de aprovada, para publicação.”

Qual o assunto da tese, se posso perguntar?

“Você escreveu sobre um escritor aparentemente desconhecido. Braulio Bras.”

Talvez seja por isso que há tantos livros e papeis na bancada dentro do cubículo em que acordei hoje. Deve ser o material que estava em minha casa.

“Exatamente! Não sabe mesmo por que veio pra cá?”

Não.

“Recebemos um telefonema seu. Dois dias antes de o encontrarmos em sua casa. Você pedia auxílio para encontrar uma palavra.”

Que estranho.

“Parece que você não conseguia encontrar a palavra adequada para concluir uma argumentação.”

Por um momento tive um lapso de recordação e visualizei meu escritório. De imediato, lembrei-me de Braulio Bras e seu diário. Era fato. Não conseguia concluir o último parágrafo do livro.

“Você está numa UAC – Unidade de Auxílio à Criação. É uma espécie de empresa que presta serviço a escritores em situações limite.”

Aquilo não me dizia nada. Não me lembrava de ter telefonado para eles. Não me lembrava de quase nada. O breve diálogo com a voz impessoal e a recordação de Nelida foram uma experiência boa. Um pouco mais de tranquilidade me invadiu enquanto eu era reconduzido pela freira de sorriso amarelo para o cubículo. Tinhas essas informações nova e, talvez, com o passar do tempo, eu pudesse entender o que se passava.

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