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Foureaux

Espaço para explanação, discussão e expressão...

Foureaux

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28
Jul20

25

Foureaux

Só dezesseis. Isso. Era esse mesmo o nome. Só dezesseis. Uma casa de dois andares. Linhas retas. Bege. No meio de um bosque num dos bairros mais sofisticados da cidade. A vista era linda. A casa de dois andares. Em cima, a residência. Embaixo, o restaurante. Só dezesseis. Era esse o nome. Durou pouco tempo. Eram quatro mesas no salão que, de fato, era uma varanda. A vista da cidade era linda. No segundo andar, a residência não era luxuosa. Comparada com outras, poder-se-ia chamá-la de uma cela beneditina. Tudo muito claro, amplo, sem muitas bugigangas aqui e ali. Uma casa “muderna”. O dono gostava assim. Ele a chamava assim. Depois do trabalho, no restaurante, no andar de baixo, subia e descansava. Só trabalhava de terça a quinta, sob reserva. Só dezesseis. Quatro mesas de quatro lugares no salão. Todas com vistas para a cidade lá embaixo. Um primor. Dois garçons para cada mesa. Um maître, uma recepcionista e um sommelier. Tudo muito organizado. O ambiente climatizado era absolutamente isolado acusticamente. A casa ficava num bairro residencial. Qualquer barulho levantaria suspeita e traria confusão. Mesas grandes, cadeiras grandes. Uma saleta de espera muito elegante e confortável. Música de um piano num nicho de parede, do lado oposto às janelas. Na verdade, uma parede de vidro. A parede inteira. As quatro mesas tinham a mesma visão. O movimento da recepcionista e do maître até parecia coreografado de tão sincronizado. Tudo muito bem ensaiado. Rigor máximo no sorriso, na amabilidade. Sem exageros, nem preferências. Só dezesseis. Era o nome do ugar. Por conta do número de comensais. Nada mais. “Ops... uma rima”! As toalhas de tecido sedoso e encorpado, bege. Os talheres de prata wolff90. Copos de cristal. Demais adereços de colorido discreto e harmônico. Iluminação indireta, em nichos embutidos entre as paredes e o teto. Nada que incomodasse os olhos. As quatro mesas dispostas em linha reta, diante do janelão de vidro. No inverno, vidros fechados e ambiente climatizado. Nas noites de verão, quando muito quente, ambiente climatizado. Nas outras noites, janelão aberto. Os perfumes da mata a coroar o serviço de dezesseis pratos combináveis. Duas carnes bovinas, duas suínas. Dois peixes e duas aves. Dois tipos de arroz. Duas opções de salada, duas de molho. Dois tipos de acompanhamento. Nada além disso. A combinação fica por conta do comensal. A carta de vinhos tinha quatro rótulos de quatro países diferentes: Espanha, Portugal, Argentina e África do sul. Quatro sobremesa intercambiáveis. Café e chá. Quatro licores. A matemática, obsessão do dono do restaurante, imperava, conspícua e definitiva. Tudo funcionando à perfeição, O cliente faz a reserva. Chega e já recebe água – que não é cobrada. Daí vinha o garçom com o menu. Anotava os pedidos. O sommelier aparece com a carta de vinhos. Depois da refeição a garçonete trazia as sobremesas e os licores. Ao final da repimpada tertúlia gastronômica, o maître voltava à ação com a conta. Discreto. Elegante. Como no começo da noite. O dono do restaurante, um estrangeiro abrasileirado, era o cozinheiro. Ou, o chef, como se costuma dizer. Depois de recolhidos os pedidos pelos comensais, costumava dar uma volta pelo salão a trocar sorrisos e mesuras com os comensais. Se havia dúvidas, explicava. Em dias especiais, absolutamente inesperados – dependia do humor dele, dizia o maître em inconfidência sigilosa –, convidava os comensais a ver a preparação de seus pratos. Era mais comum acontecer em dias com menos de dezesseis clientes. Casa cheia, ele apenas passeava pelo salão, mesuras e sorrisos. Conversava com os clientes, sorrisos e mesuras. Agradecia e se retirava para o comando da cozinha com um time de quatro profissionais. Um para as carnes,  peixes e aves. Outro para as sobremesas. Um para os acompanhamentos. Um para o café e o chá. Equipe enxuta, quase monástica. Disciplina japonesa. Limpeza hospitalar, cirúrgica. Inacreditável saírem partos daquele laboratório asseado. Tudo muito harmonizado. No salão, não havia diferença no rigor do trabalho da recepcionista, do casal de garçons e do maître. Impossível não dar certo. As primeiras semanas e o sucesso anunciado. Propaganda boca a boca e o desejo de vencer as dificuldades circunstanciais. Sem absoluta certeza de nada. Os moradores do bairro não reclamavam. Não havia grande movimentação. A comida era apreciada. Os vinhos e sobremesas degustados com prazer. Os elogios à equipe e ao serviço não podiam ser melhores. Tudo caminhando. Só dezesseis recebendo número interessante de convivas a cada semana. Amigos visitando o local. Nada de celebridades. Nada de balbúrdia. Tudo correndo bem. Até que um dia, antes de abrir, um dos garçons derramou vinho sobre uma mesa. Um chilique. Todo mundo dispensado. Só dezesseis agora é zero.

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