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Foureaux

Espaço para explanação, discussão e expressão...

Foureaux

Espaço para explanação, discussão e expressão...

29
Nov19

Como “se dar bem” com uma tese de doutoramento.

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Leia toda a obra de Walter Scott e tudo o que encontrar sobre ela. Leia os três romances indianistas – O guarani, Ubirajara e Iracema – do José de Alencar, e um que outro comentário, resenha ou artigo sobre eles. Afinal você vai escrever uma tese de Literatura Comparada. A sua proposta – você vai dizer isso na “Introdução” da tese e, depois, na hora de fazer a sua defesa – é comparar o trabalho ficcional dos dois, cada um utilizando sua língua, como instrumento de consolidação da identidade cultural à qual pertencem, utilizando, para tanto, o desenvolvimento de um uso nacionalizado” da própria língua: o scottish, no caso do Scott e o “brasileiro”, no caso de Alencar. Só esta proposta já vai angariar muitos “ah” e “oh”, tanto da banca de qualificação, quanto de alguns colegas – não todos porque, afinal, todo mundo é humano e “a inveja mata”. Escreva umas 450 páginas, espaço 1,5, margens de dois centímetros em papel A4; pode usar Times New Roman ou Arial. Tudo isso vai depender dos preceitos normativos exarados no regulamento do curso de pós-graduação ao qual você está vinculado(a). Dessas 450 páginas, 50 serão reservadas para Introdução, Conclusão e Bibliografia. As outras 400 podem ser divididas em dois momentos: uma montagem do “arcabouço teórico” de que você vai se servir para desenvolver sua tese e a “análise” propriamente dita – não se esqueça: comparativa. Veja que você já tem aí quatro capítulos que podem ser divididos em subcapítulos e este, por sua vez, em secções que podem, a seu critério, se espraiarem por tópicos e subtópicos. O negócio é seduzir o leitor – a banca, sobretudo, dado que depois de defendida e aprovada (se aprovada!) a tese vai ganhar a sóbria, circunspecta, conspícua, irrecorrível e seráfica pátina do tempo em alguma prateleiras aqui e alhures: suprema glória do academicismo mais erudito das/nas ditas “universidades” tupiniquins (Eu escrevi mesmo universidades?). Em outras palavras, o cartapácio vai comer poeira por todo o sempre. Pois bem. No desenvolvimento escrito de sua... tese, você deve se aprofundar cirurgicamente sobre os detalhes mais ínfimos do processo de constituição e consolidação do scottish, exemplificando com passagens mais que esmiuçadas dos textos do Walter Scott. Pra não dizer que você se esqueceu do “recorte” comparatista de seu trabalho, você solta aqui e ali, exemplos do Alencar, acompanhados, comme il faut, de comentários genéricos, que servirão, é claro, para corroborar tudo o que você disse a respeito do outro autor. Claro está que esse tratamento é mais que admirado pelos doutos arguidores que vão primar nos elogios, destacando sua acuidade, seu cuidado, sua atenção, sua delicadeza, a profunda imersão no “universo scottish” que serve, entre outras coisas, para justificar a aparente falência do escritor tupiniquim. Isso ratifica a importância de língua inglesa e sua coerência em relação ao que você já faz e vai continuar fazendo: enaltecendo a literatura de língua inglesa, salpicando suas apresentações de detalhes curiosos da produção ficcional “da terra”, em sua mesmice, sua futilidade, sua superficial faceta festeira, descompromissada e ingênua. Mais “oh” e “ah”, com sorriso matreiro da banca e da plateia – numerosa, claro, afinal, seu orientador é o coordenador do programa. Pronto. Você conclui sua defesa. Recebe seu diploma de conclusão do doutoramento. Já pode usar o “Dr.” na frente de seu nome e empinar o nariz quando forem apresentar você numa das miríades de mesas de comunicações livres nos inumeráveis congressos mundo afora. Aqueles que te dão 15 minutos pra você falar, enquanto quase ninguém presta atenção e, ao final, todos saem correndo para os fuxicos de bastidores no coffee break. O mais chato que pode acontecer é você se deparar, na banca, com um “ferrinho de dentista” que vai elogiar a manufatura da sua tese mas vai fazer aquela pergunta que você temeu escutar durante as quase quatro horas de defesa e arguição: “cadê a comparação?”. E você não vai responder. É este mesmo “ferrinho de dentista” que, na reunião fechada da banca para as deliberações finais, vai se recusar a assinar a ata de defesa que destaca sua tese com menção de louvor e recomendação para publicação. Ele estraga a sua festa. Põe água na sua fervura. O argumento vai ser a pergunta não respondida, por óbvio! Mas ele é só mais um “ferrinho de dentista”! Boa sorte!

PS: para sua alegria, o tal "ferrinho de dentista" jamais vai voltar a ser convidado para uma banca na universidade em que você se doutorou!

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27
Nov19

Conselhos para a boa convivência

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Se for funcionário da secretaria de obras do governo – federal, estadual ou municipal, não interessa – combine com seus colegas um rodízio. Conforme o número de elementos na turma, dois ficam trabalhando, os demais discutem, cospem no chão, mexem com as mulheres que passam, falam de futebol, recamam do governo e bebem água.

Quando for viajar de avião, não se esqueça de levar o cabo de força do celular para ligar numa das tomadas disponíveis no aeroporto. Quando enxergar uma, corra e faça bastante alarido, para mostrar que o espaço é seu. Sente-se numa cadeira e espalhe as bagagens pelas demais, fazendo cara feia para quem perguntar se o assento está ocupado. Para finalizar com chave de ouro, corra para a fila do embarque, prestando atenção para esta não ser a do grupo marcado em seu bilhete, assim que o funcionário da companhia pegar no microfone para iniciar o embarque.

Ao almoçar num restauram à la carte, lembre-se de chamar o garçom fazendo bastante alarde, para mostrar quem é que dá as ordens.

Numa festa de casamento, não se esqueça de correr para a mesa dos doces, assim que vir alguém pegar um. Corra, pegue um prato ou uma sacola plástica e encha-os. Se não se preveniu, encha as duas mãos e corra de volta para a mesa, fazendo de conta que ninguém percebeu o que você acabou de fazer. Fingir faz parte do protocolo.

Numa corrida do Uber, peça, assim que entrar no carro, para ligar o ar condicionado e peça água. Pegue umas balinhas e jogue o invólucro no chão. Não sabe o que é invólucro. Tem nada não. Chupe a bala e jogue o resto no soalho do carro. Daí a pouquinho, reclame do ar condicionado e da estação da rádio. Chegado a seu destino, reclame da água que estava morna. E não deixe fazer avaliação negativa do atendimento.

Numa loja de roupas, convença o/a balconista a pegar todas as peças que você indicar. Obviamente, você vai fazer isso aos berros, para mostrar que tem dinheiro e comprar o que quer. Olhe tudo o que puder/quiser. No fim, não compre nada e destrate o/a balconista. Ele/ela está ali pra isso mesmo.

Quando for usar banheiro público, não se esqueça de entrar no reservado falando ao celular. Fale alto, afinal quem conversa com você tem que entender o que está falando. Use vocabulário chulo, gíria e lugares comuns, muitos lugares. Descreva o ugar em que você está e diga que está gostando muito. Ao sair, não dê descarga. Não lave as mãos e não se esqueça: continue falando (bem alto) ao celular.

Quando for ao cinema – bem, hoje já não existe “cinema”, mas apenas salas de projeção em centros de compra, mas vale a metonímia. Se não sabe o que é isso consulte um dicionário, ou, antes, pergunte ao google –,  depois de comprar os bilhetes no totem – fazê-lo no balcão vai exigir de você uma educação que você não tem, afinal, você é moderno/a –, reclame da ausência de um carrinho de mão e de um balde pra você carregar a pipoca e a coca-cola (respectivamente!) que você quer comprar. Afinal você está ali pra comer. Não utilize o assento que você mesmo escolheu ao comprar o bilhete. Fale alto, use o celular e coloque as patas inferiores sobre o encosto da poltrona à frente. Depois deixe tudo esparramado por lá. Você não quer tirar o emprego das faxineiras...

Há muitos outros, mas você deve estar cansado demais para aprender o básico. Viva bem!

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19
Nov19

Impacto

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O que dizer de Joker? A atuação de Joaquin Phoenix é inquestionavelmente impecável. Tenho de reconhecê-lo, apesar de dele não gostar. Impecável. O phisique du role é impressionante. Seus movimentos corporais, numa verossimilhança incontestável – no que diz respeito à personagem, seu modus operandi, a trilha sonora e ao roteiro da história – tudo faz jus ao elogio deste, aqui, pobre ignorante em cinefilia... Gostei do filme. Só não vejo muito sentido no alarido que se formou aqui e ali depois de seu lançamento. Dizem que comparações são inevitáveis. Porém, tudo o que li sobre este tópico não me agradou. Isso porque penso que Joker, por si mesmo, é incomparável com outras versões da mesma história. In-com-pa-rá-vel. Vejamos se sou capaz de explicar isso, ainda que indiretamente. Repito gostei do filme, mas não me agradei do que li sobre ele. Isso porque não vejo pontos em comum com as demais apropriações desse arcano cultural do ocidente capitalista envolvendo uma sociedade “líquida”. O significado do termo que á título ao filme, em jogos de cartas desaparece na narrativa desta versão cinematográfica dirigida por Todd Phillips. O imaginário por ele criado, em nada e por nada, é similar ao que se percebe nas demais versões. Já, já digo o porquê. O Coringa, neste filme, não e debochado, amoral, cínico ou venal. Sua “personalidade” desviante – esta é uma palavra-chave para “entender” o filme na perspectiva em que o entendo depois de vê-lo – não se assenta em marginalidade histriônica, canhestra, moralista, criminosa, como nas demais versões do ícone. De fato, penso que esta versão é “definitiva”, para dar sentido igualmente definitivo a outro ícone, o Batman. O Coringa de Joaquin Phoenix e Todd Philips é uma criatura anterior ao Batman. Portanto, não é seu antagonista. Não é apresentado em narrativas – como a similar das demais versões de si mesmo – como inimigo da sociedade, por extensão de sentido de seu “defensor”, o homem-morcego. Não. A cena matrix do ícone Batman – até prova em contrário, a célula mater do drama vivido pelo menino que se transforma no homem morcego, num movimento de retaliação, recuperação, retorno do recalcado e, porque não, messianismo –, o assassinato dos pais de Bruce Wayne, acontece em decorrência do efeito causado pelo ato do Coringa num programa de televisão. Previsível? Sim, claro, por que não? No entanto, nem por isso desprezível. Ao contrário. O absurdo e inesperado ato é o estopim da reação popular que, aparentemente, não é compreendida pelo próprio olho do furacão, o Coringa. Ele quase não se dá conta de que o que está acontecendo à sua volta, quando acorda do desmaio causado pelo abalroamento do carro em que se encontrava. De fato, penso que esta versão é definitiva, baseado nesta observação.  Depois deste filme, qualquer versão de origem como personagem, ícone, lenda urbana e quejandos, cai por terra. A inversão cronológica dos fatos corrobora a outra faceta igualmente definitiva desta versão. O psicótico Coringa, de Fênix não é simples reação. É criação. Há uma inversão aqui. E isso é tudo. O drama psiquiátrico vivido pelo Coringa não pode ser reduzido ao acúmulo de reações contrárias ao bom funcionamento comportamental da sociedade. Neste sentido, ele não é um opositor de Batman, não representa o mal, não é um criminoso contumaz, é um psicótico, acredito, com alguma distância da chancela de psicopata. Mas não sou médico, sou apenas um sujeito que viu um filme e dele gostou. O “romance”, por detrás do filme, é de “formação”. Nada mais contundente que a cena em que ele mata sua mãe.  Édipo invertido. Ali, numa clivagem incontornável, o Coringa nasce para si mesmo. A sequência seguinte à janela da enfermaria isso. A personagem de Robert de Niro convence como estereótipo do indiferente sarcasmo ou da sarcástica indiferença que marca boa parte das subjetividades pós-modernas que se jugam superiores e, por que não, politicamente corretas. Como tinha lido alguma coisa sobre o filme, não me surpreenderam as cenas da morte do colega de trabalho, brutal, e do apresentador do talk show, assustadora. O discurso do Coringa durante o programa de TV beira a pieguice e o moralismo típico da cultura ianque. É desnecessário alongar comentários. Por fim, a sequência inicial do filme causou em mim o mesmo impacto e a mesma reação de quando vi O resgate do soldado Ryan, de Steven Spielberg. Ainda não consigo verbalizá-los, mas são os mesmos, têm a mesma intensidade, concretos, densos, irrecorríveis. Joker, um filme muito bom!

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12
Nov19

De viagens

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As mangueiras, frondosas, ladeiam o passeio, dos dois lados, da avenida Presidente Vargas. O risco de queda de mangas, é claro, existe. Mas a beleza do quadro, em seu conjunto urbano, não admite certos retoques que lhe tirem as cores. Exuberante é a palavra, penso, correta, para descrever não apenas este túnel verde, mas todas as praças da capital do Pará. Que surpresa! A impressão que se tem, a princípio, não é lá muito alvissareira. Percebe-se, com engano, que a cidade se apresenta suja. Como disse, é engano. A falta de restauração dos muitos casarões que se espalham pela cidade, sobretudo no cetro, é que causa esta enganosa impressão. A cidade é limpa, cuidada, nos limites da higiene urbana e da decência. Mesmo na região em que se concentram muitos casarões. Muito diferente do Maranhão. Claro está que não visitei TODA a cidade, por impossível. No entanto, as cercanias pelas quais caminhei, empapado de suor, por conta do vento morno úmido que sopra durante todo o dia, mesmo antes e depois das duas ou três chuvas diárias, mostram uma cidade que ainda guarda com certo cuidado as lembranças de um passado de riqueza e glória, de influência econômica e histórica. Um passado, este artigo de luxo que muitas sociedades e seus “cidadãos” insistem em desmerecer. Este fenômeno é bem sustentado pela absoluta simpatia e delicadeza com que os marajoaras me trataram e tratam as pessoas em geral, pelo menos, os círculos pelos quais passei. Cabe uma explicação. Ipso facto, marajoara é quem nasce na ilha do Marajó que está circunscrita geopoliticamente ao Estado do Pará. Logo, por sinédoque, ou metonímia se quiserem, tomo uma coisa pela outra e já está: os paraenses são de uma simpatia ímpar. Outro atrativo é o sotaque que tem o “s” chiado, sem as excrecências enjoativas e daninhas dos cariocas – que me desculpem os mesmos e os demais que também “chiam” os “s”. Mas o sotaque dos paraenses é peculiar e delicioso de se ouvir, muito em função de sua delicada simpatia. Simples, um povo simples. Logo, culinária simples, com fortes influências indígenas tucupi, tacacá, jambu, taperaba, muruci, bacuri, filhote, maniçoba. Ai que delícia. Com o jambu, faz-se o tucupi e o tacacá. Para muitos, água suja. Mas uma delícia de sabor picante e marcado pela goma de macaxeira e pelo camarão. O tucupi, caldo amarelado que acompanha o pato ou o filhote – peixe enorme, de sabor marcante e muito, mas muito apetitoso! – é outra iguaria de se beber/comer ajoelhado. Se misturado à farinha d’água então... um manjar! As frutas e os sorvetes com elas feitos são de comer ajoelhado. O mesmo se pode falar dos sucos. A visita ao mercado Ver-o-peso, é irrecorrível. Ir a Belém e não ir ao Ver-o-peso é como ir a Roma e não ver o Papa, diz o adagiário popular, de lá e de cá. Finalmente, a “casa de Nazinha”. A Basílica de Nossa Senhora de Nazaré. Que prédio majestoso por fora e por dentro. O teto, todo em madeira, é de uma elegância sóbria, monumental e muito poderosa para compor a ambiência de fé que se percebe no ar, no bafo úmido do clima de Belém e se expande por mentes e corações nativos e estrangeiros. A monumentalidade só faz consolidar e revigorar, sempre, a qualquer hora esse fenômeno inexplicável: a fé. A imagem da santa é pequena, como a de Aparecida do Norte, majestosa no alto de um altar portentoso e vibrante. Minha visita não estaria completa se lá não fosse. Fui. Emocionei-me e voltei. Quero retornar ao Pará, quero conhecer Bragança e outros rincões marajoaras, no sentido metonímico que aqui agenciei. A distância é muita, a trabalheira enorme, mas vale a viagem!

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11
Nov19

Ecos do passado - final

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Depois de um período extenso - ainda que nem tanto - de ausência, volto para concluir a série que reúne textos que escrevi e sobre os quais não tenho informações mais detalhadas como origem, objetivo e localização. É isso, então, acabou!

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De um como e um porque sem saber (ao certo onde)

 As coisas se tornam menos importantes do que as ideias das coisas: tudo o que for feito às ideias das coisas inevitavelmente acontecerá também com as coisas.                        (Fraser, citado por Freud em Totem e Tabu)

 Toda dicotomia – e a que encadeia História e Literatura não escapa a esta regra – leva a pensar em dúvida, em questionamento. Os anos 60 e 70 estão embutidos neste quadro referencial. Eles foram um fervilhar, direto e constante, de ideias. Eles espalharam-nas como pó. Este texto acompanha e respeita esta tradição. O jogar ideias pode parecer uma prática criticável mas abala estruturas, incomoda e faz pensar. Como um ventilador ligado sobre um prato de farofa, come­ço com uma pergunta, uma dúvida: e se Américo Vespúcio, como o Jesus, de Saramago, se questionasse sobre os rumos de sua viagem, de sua missão, negando-se a embarcar? Talvez não estivéssemos aqui, pensando a dicotomia descoberta/invenção, presente de certa forma na cultura brasileira, mediada que é por uma Literatura formada e escrita numa lín­gua segunda, importada, imposta e, aqui mesmo, caracterizada por uma diferença plural que, por paradoxal que seja, identifica uma diferen­ça. Se o descobridor da América não tivesse descoberto a América, é bem provável que a cultura brasileira; não necessitasse de seu estatu­to de objeto de pesquisa constante. Parece claro afirmar que todo ob­jeto de pesquisa é um “objeto de desejo”.

A América, na palavra que a identifica, pode ser lida como um chiste perverso, construído com um nome de homem, e colocado na berlinda através desta mesma palavra. Muitos são os eventos que têm aconteci do aqui, sob a égide dos quinhentos anos de descobrimento da América. Fico pensando no padre que celebra a missa das vinte horas, na catedral. Desde o início do mês de outubro, ao lado do comentarista, ele fala da comemoração dos quinhentos anos de evangelização da América. 0 filme A missão é uma obra de arte que deve ser lembrada aqui. Não ape­nas por se tratar de uma obra de arte de inegável valor, mas também por colocar em discussão os custos e as consequências desta evangelização. É preciso que se diga que os jesuítas primaram pelo recalcamento da cultura autóctone para impor a religião católica aos índios que na América já viviam. Com esta atitude eles podem ser arrolados entre aqueles que, num certo sentido, inventaram a América. Sim, porque o desejo de trazer para cá a cultura europeia – portuguesa, espanhola, ou italiana, tanto faz – esboçou uma terra outra, radicalmente diferente da realidade que aqui se encontrou depois da descoberta. Respondendo a uma questão sobre o assunto, o crítico e ensaísta Wilson Martins fez declarações bastante instigantes, a saber:

Sim, mas as pessoas não pensam na alternativa. O que se queria? Que Colombo não descobrisse a Améri­ca? Outro a teria descoberto. As consequências seriam as mesmas. Ninguém nega o horror que foi o processo civilizatório, mas, de um ponto de vista rea­lista, não podemos evitar essas violên­cias que ocorrem a longo da História. Na Europa a civilização foi feita à custa de hecatombes de populações, guerras e, destruições. E é o que chamamos de civilização. Ou aceitamos esses males para obter o fim que desejamos ou então não fazemos nada. Os índios não podem ser conservados na Idade da Pedra em pleno século XX. Ou se adaptam ou serão destruídos. Não porque tais pes­soas vão lá para destruir os índios. Eles serão destruídos no processo civilizató­rio porque não viverão mais no seu tempo. Sei que essa é uma posição impopular, mas temos que enfrentar essas questões seriamente.

 

Será que as coisas se passaram tão simplesmente assim? Outro teria realmente descoberto a América? As consequências teriam sido realmente as mesmas? A justificativa parece um tanto tendenciosa para não dizer sintomá­tica da indiferença. O argumento da civilização enquanto processo também de sofrimento, é uma falácia ambígua e perigosa. A sombra da resignação não parece atenuar os efeitos de um calor que vem de dentro, que incomoda, que parece não encontrar um refrigério adequado a suas apoquentaçõesÉ perigoso afirmar que o tempo do processo civilizatório pode petrificar situações, depende do ponto de vista. Quem, realmente, quer assim? Alguém perguntou à população Americana à época do descobrimento, se ela queria passar por um processo “civilizatório”?

É bom pensar também que tudo o que se conhecia sobre a terra descoberta sempre foi mediado pela palavra. As metrópoles envolvidas no evento ficaram sabendo de tudo através das cartas, dos comunicados, das descrições verbais de quem aqui aportou. Palavra esta que mimetizava o dado concreto, filtrada que era pelas subjetividades em combate, na luta pela posse definitiva da nova terra. Há, então, uma espécie de atribuição de empenho que se faz a Literatura, enquanto repositório de textos informativos. A etimologia da palavra “Literatura” e insidiosa. Repleta de curvas e sinuosidades, é apenas uma palavra, entre tantas ou­tras. Tal como América. Se o navegador italiano não tivesse deixado a sua terra natal, talvez a descoberta da América não se desse; ou melhor, seria impossível a sua invenção. Pois que a América é apenas um nome atribuído a algo que ganha consistência depois de nomeado; um lu­gar identificado por alguém, em algum momento, por algum motivo. A coisa foi encontrada ao cabo de uma viagem. Sujeito, olhar e viagem voltam-se miticamente para algo desconhecido. Com estes três elementos pode-se pensar no caráter transitório que marca todo e qualquer descobrimento. Depois de identificado por um nome que pode ser inventado, o que se descobriu passa a ser conhecido, deixa de articular o fantástico, o inesperado, o mágico da descoberta. Está descoberta a América. Está inventada a América? Para finalizar esta primeira abordagem do que me proponho dizer, quero apresentar a “verdade” sobre Colombo, nas palavras de Jô Soares:

 

Neste momento de comemorações sobre a descoberta da América, muito foi dito a respeito de Cristóvão Colombo. Colombo para os mais íntimos. Uns se pronun­ciaram contra, outros, a favor, outros, muito pelo contrá­rio. Desbravador? Descobridor? Devastador? Conquista­dor? Várias novas teorias foram formuladas. Faltou, no entanto, clareza.

Colombo era, quando menino, bem criança. Homem do seu tempo. Colombo foi filho de seus pais, e também neto de seus avós, pertencendo desde cedo à família.

Extraordinário navegador, possuía ele ainda a peculiari­dade de só exercer suas habilidades marítimas quando a bordo de caravelas e seus conhecimentos náuticos se restringiam aos navios e a outras embarcações. O que poucos sabem é que Colombo era um homem que tinha os pés no chão, sempre que estava em terra firme.

Dizem alguns cronistas bem informados e documenta­dos que Colombo demonstrava muito mais talento e inteligência do que todos os que eram menos dotados do que ele. Tanto, que passou para a adolescência na puberdade e depois disso ficou adulto. Quando menos se esperava, Colombo, num rasgo cronológico, atingiu a maioridade aos 21 anos.

Se ainda pairavam dúvidas quanto à verda­deira origem de Colombo, hoje pode-se dizer, sem sombra de dúvidas, que ele veio ao mundo na sua cidade natal, exatamente no dia do seu aniversário, que, aliás, era comemorado anualmente. Num ponto, todos os historiadores con­cordam: Colombo casou-se com sua mulher.

Além de exímio navegador. Colombo era homem de várias habilidades e foi perito em tudo aquilo que de melhor fazia. Registros da época narram, com detalhes, que sua memória era tão fantástica que ele conseguia se lembrar nitidamente de tudo aquilo que não esquecia. Pessoa de poucos amigos. Colombo se dava com quem conhecia e tratava com indiferença todos aqueles que não eram das suas relações. Uma frase da época o definia perfeitamente: “Amigo dos seus amigos, inimigo dos seus inimigos”.

Ao contrário do que dizem, antes de ver o mar, Colombo jamais tinha pisado numa nau. Hoje sabe-se, pelos relatos de antigos marinheiros que viajaram com ele, que, no fundo, Colombo era uma pessoa de temperamento suave, a não ser quando se exaltava, e, afirmam ainda, que famoso navegador só se cansava em momen­tos de exaustão. Seus homens o admiravam, pois nunca foi visto dormindo quando acordado.

Tantas viagens fizeram com que, no fim da vida. Colombo dominasse com perfeição todas as línguas que falava sem dificuldade. Alguns pesquisadores dizem até que quando ele conversava usava palavra, deixando apenas para redigir tudo aquilo que escrevia. Além disso, essas viagens fizeram com que o famoso navega­dor conhecesse todas as regiões do mundo a não ser aqueles lugares onde nunca esteve.

Tamanho era o empenho de Colombo naquilo que fazia que certa vez, na Itália, um velho marinheiro ao vê-lo tão atarefado cumprindo seus afazeres no convés não resistiu exclamou em genovês arcaico: “Quiste, quan labut, lavór”. Em português significa: “Este, quando labuta, trabalha”.

Finalmente, é fundamental que se esclareça de vez o famoso episódio do ovo. Por mais que isto venha a contrariar opiniões abalizadas e consternar especialistas e acadêmicos, é preciso que se revele a verdade: o ovo não era de Colombo. Era de galinha.

 

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Descobrimento, em certa medida, é o assunto de Asas do desejo e Europa, filmes que voltam seu olhar para um país destruído, em pleno processo de reconstrução. Uma situação análoga ao descobrimento, porque uma coisa diferente está aparecendo. 0 cenário em ruínas de Europa dialoga com o contraste entre cores e preto-e-branco de Asas do desejo. Em ambos os textos fílmicos, um outro indivíduo descobre, de novo, um país. Algo desconhecido, não nomeado, ainda, 0 olhar estrangeiro pousa sobre a paisagem circundante, um descobrimento outro, diferente.

A voz do narrador em Europa condiciona o protagonista a obedecer às suas ordens. A onisciência narradora é incomparável, e no desenrolar da alegoria, é possível ler o desenvolvimento de um outro olhar: o da crítica, presente no discurso do anjo, em Asas do desejo. Passados cinco séculos, esta se volta sobre si mesma, a crítica, centralizando forças e atenção sobre o novo continente, para deslindar a dúvida fundamental: descoberta ou invenção? A coisa pode se complicar quando se pensa que a América são três: sul, centro e norte; se misturam numa infinidade de diferenças em que a Literatura, mesmo com a diversidade linguística, consegue identificar num texto comum a ser decodificado, reelaborado, narrado e, depois, criticado; para que o princípio do prazer não seja subjugado pe­lo da realidade.

É bom pensar nos caminhos que a Literatura Brasileira, em sentido lato, tem tomado para continuar um processo de construção de sua própria identidade, enquanto parte constitutiva da América. Trabalho de Sísifo, inútil em si mesmo, pois a linguagem não tem o status de obje­to de posse. As palavras escapam, sempre e mais. Assim, na Literatura, tout court, sempre acabam se concentrando discussões que, sob a chancela de interdisciplinaridade, pulverizam o nome de um continente.

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Peitorais desenvolvidos, bicos do peito duros de prazer, múscu­los abdominais torneados e latejantes; pele branca, cabelos lisos e olhos azuis: o macho branco que está sempre no comando, como Caetano jamais nos deixa esquecer. Em nada estranho, porém estrangeiro, esse indivíduo continua sendo o parâmetro de qualidade, um biotipo a ser imi­tado, padrão de beleza, de sedução, de poder: e a inteligência?

Do Robson Crusoé, de Defoe, ao Jesus Cristo, de Saramago, passando pelo Peri, de Alencar, o macho branco continua vomitando regras. A Literatura as alegoriza, num desejo latente de vitória sobre a insignificância. Ou seria o contrário? Mesmo as propostas culturais de movimentos de apoio e expressão de minorias, os valores organizados de po­líticas universalizantes e fraternas, tudo se estabelece a partir dos parâmetros europeus, brancos, quase arianos...

O desespero do homem americano quase corresponde ao delírio es­pecular da Alice, de Lewis Caroll. A pulsão escópica orientou a armada de Colombo e não colocou nenhum ovo em pé. Certos discursos podem come­ter o deslize de repetir obviedades, como aconteceu com a página de Jô Soares. Apesar disso, podem não ser totalmente inválidos, fazendo levantar uma lebre, que num piscar de olhos se transforma...

Caixa de Texto: hA Literatura, representação em palavras, signo gráfico que não diz nada se o olhar do leitor por ele não passar, continua a tradição atávica para a espécie humana: ler. Ler a América, hoje, e reler textos que passaram a compor o acervo de bibliotecas estranhas e familiares. É assim que funciona, caso se leve a sério o que diz Freud quando pensa sobre Das Unheimliche. Os escaninhos da História alimentam as traças do esquecimento, ou não, como poder-se-á ver com a contribuição de Deonísio da Silva. A América é um objeto de desejo de um conjunto de feitos grandiosos, de personagens heroicos, quase míticos. Por outro lado, o rever estes textos desnuda uma outra coisa, inesperada. A palavra constrói um outro sujeito, duplo, perdido entre espelhos: o da memória e o da História.

Na superfície escorregadia e translúcida do texto, a imagem se esboça, quase miragem, a pulsar num desejo, ato contínuo, que se esgarça na tentativa vã de um toque, da petrificação de um lugar... América. Afinal, estamos aqui, falando de cultura brasileira, uma realidade sul-americana, veiculada pela língua brasileira.

Em La conquéte de l’Amérique, Todorov delineia o que seria um projeto do grande outro para o europeu conquistador, bravo e prepotente – aqui, de novo, um vislumbre do que o Romantismo tanto buscou. Não fosse uma pseudosaga cantada em prosa e, principalmente, em verso – como em Camões, por exemplo, acompanhando alente de aumento instituída ensaisticamente por Eduardo Lourenço –, o patriarcado da Língua Portuguesa poderia estar difuso em fragmentos, sujeitos diluídos e alienados em discursos outros, quem sabe, numa Literatura sem fronteiras nacionais, se isso fosse possível. Não seria o retorno de um grande e perigoso recalcado? A língua indígena foi recalcada pelo português, pelo espanhol, pelo italiano, mesmo que, hoje seja possível encontrar todo um acervo lexicográfico presente e efetivo na língua portuguesa, oriundo desta recalcada. É no sentido de uma miscigenação linguística que a língua portuguesa da corpo a desejos, sonhos, invenções e descobrimentos de microrrealidades brasileiras: um espelho, dentre outros, da América.

A corte portuguesa aporta na fonte de suas riquezas por obra e graça das mandíbulas anglicanas que, sôfregas e vorazes, ameaçavam manchar a reputação de uma raça mistificada em verso e prosa. Este é um dado curioso, maquiado pelo discurso da oficialidade histórica, que, muito contribui para a mudança de perspectivas no ensino de nossa Literatura. Outro não era o principal interesse da citada corte, senão a ex­ploração colonialista do Brasil, parte da América. A língua, mátria velosiana, fez seu papel de chancela, de carimbo de oficialização: marcou a diferença. Falada, ela parece ser mais bem assimilada pelas men­tes pensantes de então. O caráter tacanho da inteligência colonial no duplo sentido da adjetivo se sente ameaçado quando o mestiço Machado de Assis coloca em dúvida a força potencial de uma nacionalidade telúrica, para estabelecer o caráter de questionamento, de busca da origem do processo de construção de uma identidade através da Literatura. Em “Instinto de Nacionalidade”, o escritor carioca golpeia implacável a crença num gigante ainda deitado em berço esplêndido.

O descobrimento do Brasil ecoa e repete o da América. Numa sequência perversa de aparentes coincidências, o ato de nomear uma nova terra, um novo lugar, aqui repetido, alça foros de grandiosidade e do­cumento. A invenção da América traz consigo a descoberta de um... poder outro, diferenciado: o poder do nome, a força da palavra, o desenho lexical de um desejo, contorno de um vazio. 0 caso Brasil volta a chamar a atenção de leitores ciosos da verdade, mesmo que esta seja apenas uma e não toda. O Brasil, na sequência alfabética de seu nome, repete a América, em quadros históricos diferentes, é claro. A pulsão escópica e a escrita literária, no entanto, parecem mumificar um mesmo e único objetivo: satisfazer um desejo.

O olhar do europeu civilizado e racionalista se espelha no verde-amarelo que começa a identificar as letras que a colônia produz e tece. Fantasma mítico que faz com que o tecer, o tecido, o texto, encarne, para ambos, colonizador e colonizado, a posse da terra e, para­doxalmente, o pavor de uma castração simbólica. O primeiro grito pode ter sido a manifestação de um instinto, o machadiano, que ecoa na Semana de 22, apesar de todas as sombras e dos nichos vazios. Este toma forma, corporifica-se numa desejada pós-modernidade, mais desejada que consistente. É assim que se pode pensar num modelo de entendimento do processo de formação de uma identidade para a Literatura feita aqui, a partir das direções opostas de um mesmo projeto. No caso do Romantismo, esta direção volta-se para a faceta política da História; no caso do Modernismo, volta-se para a faceta estética. Ambos tinham um mesmo e único objetivo: desenhar o perfil de uma cultura, uma língua, literariamente trabalhada. Daí poder-se pensar também que o corte com o público, que marca um certo momento do Modernismo, e a contraface da moeda que procurava, sob a égide do olhar estrangeiro, esboçar desenho desejado do mesmo público.

Como consequência, é impossível desconhecer a luta incruenta da ficção de um João Gilberto Noll, principalmente em BandoleirosRastros de verão e O quieto animal da esquina. Obras cujo lirismo fracassado – no que este qualificativo tem de nietzscheano, portanto, de construti­vo – só encontra respaldo nos delírios urbanos, cosmopolitas, metropo­litanos, de um Caio Fernando Abreu em Onde andará Dulce Veiga?. Ambos os conjuntos de obras buscam um caminho na encruzilhada de atalhos que a cultura brasileira desenha. Estas narrativas apontam para um traço te­lúrico que faria parte constitutiva da cultura brasileira. No meio desta “turba insone” e assanhada, Clarice Lispector poderia ser a bandei­ra que o vento não toca, por força da microscopia social na intimidade feminina de A hora da estrela. Intimidade feminina e narrativa. Imóvel, ela abate, fulmina com o olhar desenhado na letra arfante de uma escrita que tateia, dedilhando um teclado desconhecido: a memória nacional, mais que isso, a memória continental. Existe a sombra de um destino de grandiosidade que sucumbe diante de uma facilidade mágica de encontras inesperados: seria essa a es­sência da descoberta?

No quadro caótico que a Literatura desenha na terra descoberta por Colombo primeiro e por Cabral depois, a diferença se entranha e, nas entrelinhas, desenha uma identidade mestiça, sem contornos defini­dos. Assim, refletem As mulherede Tijucopapo e O lago encantado de Grongonzo, romances de Marilene Felinto, nordestina que escarafuncha e explora a língua pátria, construindo e reconstruindo imagens de uma particularidade singular: Herança do regionalismo de 30? Esta visada se choca profundamente com a aparente ingenuidade regionalista de Charles Kiefer, em face do abismo e Valsa para Bruno Stein, textos em que as raízes mais prosaicas e ancestrais insistem em florescer. Aqui é possível pensar num projeto que busque redesenhar o perfil cultural da Literatura gaúcha, no seu viés marcado pela imigra­ção, reinscrevendo está mesma Literatura na historiografia literária nacional. Charles faz o passeio por uma linguagem simples e direta, pelos campos do estrangeiro enraizado em solo brasileiro, em solo americano, minando a prepotência de uma identidade robusta e bem calcada, pura. Não só a imigração como o fluxo migratório interno causam modificações radicais no texto literário que a América produz. Isso é resultado de urdiduras diferenciadas que promovem e liberam a constituição de uma identidade confusa, alienada nas malhas da própria letra. Como encontrar o genuinamente brasileiro? Como “ensinar” o caos dos cursos de Literatura, no segundo grau e de Letras?

O descobrimento da América, mulher que emblematiza o navegador, no retorno de um recalcado coletivo, pelo menos para o europeu, e mais um trunfo da linguagem. A terra; sempre esteve aqui, respeitados os abalos sísmicos e as acomodações da camada terrestre do planeta. A América já é antes de ser descoberta. Esta invenção fica espetando a consciência que tendenciosamente tem servido de desculpa para exageros, trambicagens e arapucas homéricas em que, mais uma vez, o sujeito se perde.

O Brasil se torna independente com o gritodo Ipiranga, conforme reza a tradição. O grito é acompanhado por um cortar os laços e a cena se passa perto de um riacho. A simbolicidade destes elementos não afasta a hipótese do grito primal, do parto, 0 efeito ainda e de mise-en-abîme. A América reproduzida no Brasil ou o Brasil reproduzido na américa? Ao lado disso, há que considerar o fato de que a Medicina é um dos primeiros cursos a marcar a entrada do Brasil no mundo da universidade. É bom lembrar, então, de Michel Foucault, no conjunto de suas obras, quando e enquanto ausculta o Ocidente, rastreando os sintomas, os indícios de um controle que joga por terra a autonomia de uma identidade para inscrevê-la na esfera do proibido. É a sublimação que se consuma. Luiz Costa Lima trabalha nesta direção, quando considera a questão da documentalidade do ficcional, até certo ponto vítima de um veto in­devido e, por que não, perverso. Estaria, talvez, aí, uma das chaves de leitura para uma outra questão: a dependência cultural, embasada na díade: economia, e etnia. Neste contexto, a Literatura Brasileira receberia o estatuto de invenção, pois tinha a necessidade de identificar-se e à nação recém descoberta, em sua autonomia. A repetição do processo coloca o Brasil e a América no mesmo plano analógico, apesar de um ser parte da outra. A Literatura de invenção na América e no Brasil, em particular, descreve a tangente que se- desloca do outro para o eu, em termos de uma identidade cultural. Talvez aqui esteja delineada uma pequena pista para o esclarecimento do sucesso do realismo-mágico ou, ainda, de uma certa narrativa fantástica, em solo americano.

Seria o momento de recordar as labirínticas bibliotecas borgeanas, caminhos que se cruzam entre paredes, vedando a visão do exterior. Do mesmo modo, os longos colóquios político-culturais de Vargas Llosa, principalmente em Conversa na catedral e Tia Julia e o escrevinhador. Para completar, poder-se-ia evocar a obra de Garcia Marques, no caso de Cem anos de solidão e A triste história de Candida Eréndira e sua avó desalmada. Não se podem deixar de lado, no entanto, nomes como os de Julio Cortazar, Alejo carpentier, Lezama Lima e Cabrera Infante, para não alongar demais a lista e o assunto. Todos numa galeria inteiramente cosmopolita que se abre nesse flanco da Literatura latino-americana; bem ao gosto da dicotomia que funda este texto. Invenção e descoberta confundem-se numa rua de mão dupla. Esta duplicidade, esta ambigüidade, se realiza no texto fantástico. Mas o que é fantástico?

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Mesmo que haja um pouco de ingenuidade, os anos 60 e 70 não po­dem ser descartados do dossiê americano, desdobrado em terras brasileiras. Este desdobramento, para mim, é eminentemente literário. É neste sentido, neste âmbito, que inscrevo minhas observações e meus delírios. A América foi descoberta. Ela foi inventada também. Não há como negar esta evidência. Trata-se, no entanto, de uma palavra que, enca­deada a outras, articula um discurso. 0 fluxo incessante de acontecimentos, registros e identificações promove uma abertura maior para a Literatura produzida, principalmente, de cinco séculos para cá.

A América foi inventada, porque sempre há necessidade, e uma necessidade zen de explicar origens e destinos. Desta forma, a marca da diferença se faz sentir, como vetor que esclarece a direção e o sentido da construção de uma identidade. A América é um processo e parece bastar a constatação óbvia da sua dinamicidade. O mais é especulação, tentativa, sonho, desejo, delírio. A América é, na verdade, escrita. Escrever é um ato de inteligência, requer aprendizado. Sendo resultado da utilização da língua, para dar forma à cultura. Este ato de escrever, aqui e agora, tentou delinear o esforço de um olhar particular – o bra­sileiro – sobre a dualidade que emblematiza a América. As obras e seus autores estão aí, muitas vezes, esperando por esse olhar, para não fi­carem mudos diante do fluxo da História, este ato de escrever revela um desejo particular, muitas vezes vilipendiado, mas isso já é uma ou­tra história...

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29
Out19

Ecos do passado III

Foureaux

Ouro texto cuja origem e objetivo se perdem no emaranhado de uma memória já combalida elo ócio criativo. Ao fim e ao cabo, não interessa - para mim, agora - determinar esta referência. Assim como não há referências bibliográficas registradas ao final - não se trata de artigo, tese ou dissertação - fica o texto como mais uma especulação a, se minha proverbial síndrome de Macunaíma deixar, fazer parte de um livro pretendido.

 

A recepção literária com uma (outra) escrita à deriva: estética ou teoria?

 

 

(...) o texto é lembrança de uma outra tela. Texto, que se lembra de um tex­to anterior. O grau zero da escritu­ra não existe e talvez jamais tenha existido. A literatura é sempre de segundo grau, não em relação à vida ou à realidade social de que ela se­ria mimésis (Auerbach), mas em rela­ção a ela mesma, e o plágio não é senão um caso particular dessa escritura sempre derivada de uma outra.

(Michel Schneider, Ladrões de palavras)

 

Eu começaria fazendo, uma pergunta muito comum. Uma pergunta que cada um de nós já se fez, pelo menos, uma vez na vida, não importa onde nem quando: o que é que eu estou fazendo aqui? Banalidade? Desinformação completa? Não parece. Esta pergunta é a responsável pela abertura de um atalho, um recorte, uma rasura nesta folha em branco. Uma página que pa­rece uma boca aberta. A hiância da página em branco metamorfoseia-se agora nesta fala que tenta, mais uma vez, suturar essa “falha”.

Nesta mesma medida, a Teoria da Literatura pode ser lida como es­te texto que se inscreve num espaço desejoso de esclarecimento, de compreensão. Ele é, também, mais uma demanda de amor. Neste sentido, quatro disciplinas podem ser apontadas como os pilares de um edifício: a teoria, a história, a análise e a crítica. Estou apostando na simplicidade didática de um conhecimento pressuposto. Dentre os quatro pilares, destaco o primeiro, mais ousado: a Teoria da Literatura. Ela tem se mostrado, na verdade, um grande conjunto de disciplinas afins que se completam, se interpenetram, questionam-se mutuamente. A continuar acreditando neste “modelo”, é possível afirmar que uma destas disciplinas “segundas” é a Estética da Recepção. E aqui, uma primeira questão aparece: é estética ou Teoria da recepção? A terminologia sempre foi, é, e será um nó a ser desfeito, pelo menos em projeto, pela Teoria da Literatura.

A proposta deste texto se alarga um pouco mais quando se vislumbra, na atualidade – e tome-se aqui este termo em seu sentido mais largo – a articulação de mais uma disciplina igualmente pletora de experiências, ousadias e desejos intelectuais voltados para a literatura. Trata se da Literatura Comparada. Este alargamento é viabilizado pelo contato com a Psicanálise e a retomada de uma linha de pesquisa específica: o estudo de fontes e influências. Estes parecem ser os pontos que delineiam o perímetro de abordagem do texto que se escreve aqui e agora. Qualquer outra especulação, ou possibilidade, fica fora se cogitação, enquanto elemento específico a ser considerado.

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Por volta de 1967, um grupo de investigadores, reunidos sob o nome de “Escola de Constança”, publicava uma série de textos que, paradoxalmente, não podem, ser classificados de programáticos. Neste sentido, acrescento aqui algumas palavras de Wolfgang Iser, quando faz considerações sobre o texto literário em seu artigo “Problemas da teoria da literatura atual”:

 

(...) o texto literário é um ato intencional dirigido a um certo mundo, o mundo com que ele se relaciona não é repe­tido, mas experimenta ajustes e correções (...). A função do texto literário se funda portanto nas maneiras de fazer um balanço de um mundo problemático ou por ele problematizado.

 

Deixando de lado, por ora, as possíveis ligações entre a citação e o texto que se lê, não é sensato abandonar a imensa operacionalidade de uma palavra simples “função”. Ela detona um movimento de revisão de certos conceitos, igualmente operacionais, que a Teoria da recepção pro­põe para a Teoria da Literatura, como um todo. O momento histórico em que os primeiros textos da Escola de Constança aparecem é de extrema fecundidade. A revisão crítica do Estruturalismo já se processava de maneira serie e profunda. Por outro lado, os posicionamentos de uma outra linha de abordagem, a Hermenêutica, aponta­va para a renovação criativa do trabalho de investigação literária. Neste sentido, a função emerge como uma questão fundadora de uma “teoria da leitura”. A leitura não é um movimento linear, progressivo, diz Terry Eagleton. Continuando em sua linha de raciocínio, é mais que necessário afir­mar que não se processa uma acumulação de sentidos. Na medida em que se lê, as especulações iniciais acerca do texto lido estabelecem, geram, um quadro suficiente de referências para aquele momento da leitura. A interpretação, momento seguinte, acaba por continuar esta sucessão, bem como pode modificar, em retrospectiva, o entendimento da leitura original, da leitura primeira.

A partir, destes dados, a função do texto literário deixa de ser meramente semântica. Outros quadrantes serão atingidos. É nesta direção que Regina Zilberman, em seu recentemente publicado Estética da Recepção e história da literatura, diz: “Ler assume hoje um significado tanto literal, sen­do, nesse caso, um problema de escola, quanto metafórico, envolvendo a sociedade (ou, ao menos, seus setores mais esclarecidos) que busca encontrar sua identidade pesquisando as manifestações da cultura.”

Citada aqui para ilustrar o primeiro passo dado neste “atalho”, a professora gaúcha acaba apresentando duas outras questões cruciais para a Estética da recepção, a identidade e a história. Com relação à primeira, é bom que se diga da oportunidade criada pelos estudiosos da Escola de Constança, no sentido de abranger os tra­balhos historiográficos de determinação ou, ao menos, de delineamento do perfil nacional das mais variadas literaturas. Por outro lado, a questão da história emerge de maneira fulminante: é mais que necessário rever os parâmetros de aproximação entre Literatura e História. Não há porque continuar acreditando na suposição de que a Teoria da recepção fixaria os limites da importância de tais ou quais obras, consagradas ao púlpito da historiografia literária, de qualquer nacionalidade. Esta seria uma atitude até naif. Torno, às palavras de Regina Zilberman:

 

Oferecer a estética da recepção como um novo figu­rino ou esperar que ela encontre seguidores e adeptos entre nós, seduzidos por suas promessas e já saturados de alguma outra corrente crítica, ou filosófica, é não apenas ter uma visão frívola da teoria da literatura (...), significa também colaborar para a alienação e dependência culturais, de que aquela frivolidade é um dos sintomas.

 

É neste sentido da antifrivolidade que se faz útil, rentável e instigante ler a contribuição de Jauss, com suas “teses sobre a história”. A Estética da recepção seria então uma nova teoria da literatura; nova porque ancorada no interminável manancial da “historicidade da arte”. Este e o elemento decisivo para que se possa desejar – sempre e mais – a compreensão do significado da Literatura, no conjunto da vida social. Assim, pode-se afirmar, como meta principal da Teoria da recepção a reabilitação – constantemente perseguida – da Literatura enquanto marca outra desta mesma historicidade.

Ainda na grande abrangência da Teoria da Literatura, a Estética da Recepção vem oferecendo um leque de sugestões, variado e competente, instigante e iluminador. Estas se voltam, principalmente, para a História da Literatura. Não deixam de colaborar com a Literatura Comparada e marcam a crítica literária. É obvio que as consequências disso recaem sobre a questão do ensino da literatura: isto é outra história... Mas não é só isso, A Teoria da recepção, nas palavras (mais uma vez!) de Regina Zilberman, apresenta-se como uma teoria em que a investigação muda de foco: do texto, enquanto estrutura imutável, ele passa pa­ra o leitor, o “Terceiro Estado” seguidamente marginalizado, porém não menos importante, já que é condição de vitalidade da Literatura enquanto instituição social.

Outro desdobramento é vislumbrado aqui. A dupla dinâmica agora é formada pelas noções de estrutura e de leitor. Com relação à primeira, é bom que se diga que existe um relacionamento entre os elementos que constituem a “estrutura” do texto literário. Este relacionamento instaura um certo “procedimento”, que possibilita a produção, a construção de um sujeito do/no texto. Isto porque, nas propostas vindas, inicialmente, de Constança, passou-se a ser verificado um esforço de encontrar um conjunto de “modos de acesso intersubjetivos à literatura”, é a derrocada da imanência do texto literário, tão cara ao Estruturalismo, herança perversa de um certo olhar oriundo da fenomenologia husserliana, outra cesura filosófica.

Num rápido intercurso, Heidegger, leitor de Husserl, trabalha ar­duamente nesta linha. Motivo pelo qual, num certo sentido, pode compor esta herança fenomenológica da Estética da Recepção. O sentido do texto, contrariamente a este posicionamento, não é “dado”, aprioristicamente. Os procedimentos do texto literário, neste âmbito da especulação teórico/estética, esclarecem o modo como e produzido seu sentido de “conjunto”. Há a subliminar aparição do mito do eterno retorno. O sentido, enquanto hori­zonte final, de expectativa do texto, fica fora de cogitação. Desprovido de relações “conjunturais”, abstrai-se. E o sentido deste “sentido” é sua função.

Retomando o fio da meada, tentando acompanhar o raciocínio de Wolfgang Iser, as estruturas têm o caráter de indi­cações pelas quais o texto se converte em objeto imaginário, na consciência de seu receptor. Este receptor é o leitor – implícito, preparado, adequado, crítico, etc., as denominações são muitas. É o aludido “sujeito” (e a etimologia não pode ser, aqui, desprezada de forma alguma!). Este sujeito é “construído” pelo contraste, pela polaridade, pela diferen­ça, pela repetição, pelo paralelismo, pela sinceridade e pela gradação operados pelo próprio texto. Seria demasiado pensar em alienação e clivagem? É isto que possibilita, paradoxalmente, afastar a compreensão do gosto subjetivo, em favor de uma “consideração objetivável” da Literatu­ra. É claro que, rio jogo de palavras, o desejo se manifesta, fazendo re­tornar um recalcado por demais conhecido, e especulado! Este objeto ser­ve a este desejo.

Seguindo estes rastros, não se trata de uma aberração afirmar que os conceitos-chave da Teoria da Literatura deixam de lado sua ingenuidade. Esta ainda é explosiva, desintegradora mesmo, quando se trata de en­contrar um “único sentido”, conforme quer Iser. Seria possível, então, perguntar se a Estética da Recepção, no âmbito da Teoria da Literatura, se presta ao papel de “instrumento” desta busca. O sentido não é o horizonte de expectativa do texto literário, mas apenas dos discursos da Teoria da Literatura, e por consequência da Teo­ria da recepção, que agem desta forma para que o texto se torne traduzi- vel. A recepção, neste enquadramento, é muito mais que um processo semântico. É um processo de experimentação, de uma configuração do imaginário, projetado no texto. No âmbito da “recepção”, produz-se, no leitor, o objeto imaginá­rio do texto. É uma experiência sempre revivida: desejo latente. A recepção está mais próxima da experiência do texto, da experiência do imaginário que este texto projeta, desvela, revela. Não é uma interpretação, uma semantização do imaginário. É assim que a recepção, por força de experienciar um imaginário, transforma-se em objeto de uma interpretação ou­tra.

Mudado o foco das especulações para o leitor, é bom que se diga, com as palavras de Terry Eagleton, em seu livro Teoria da literatura: uma introdução, que “(...) o leitor abordará a obra com certos “pré-entendimentos”, um vago contexto de crenças e experiências dentro dos quais as várias características da obra serão avaliadas.” O leitor é este sujeito desejado na/pela obra. Esta é originalmente “aberta”, mas esta abertura é objeto de gradual eliminação, pois o leitor passa a construir uma hipótese de trabalho, capaz de explicar e fazer coerentes o maior número possível de elementos desta mesma obra. Na ambiguidade do termo leitor, a Teoria da recepção constrói o seu texto. Vai tecendo suas observações e constatações. Inscreve seus desejos e metaforiza suas imagens no écran. A folha de papel é o simulacro da tela branca. Nenhuma leitura é inocente. Por fim, todo texto literário é construído a partir de um certo sentimento em relação ao seu público potencial. Ele inclui a imagem do seu próprio destinatário.

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Filha (perversa?) dá Hermenêutica, a Estética da Recepção desdobra o mito que acentua o caráter da consumição pelo fogo. Hermes diz presente. Passando pela obsessiva metodologia, na busca de uma verdade inalcançável – porque feita de palavras – Gadamer também diz presente, algum tempo depois. Adorno contribui, num momento mais adolescente da especulação “recepcional” – o nome é, em sua natureza, impróprio, pobre, mas muito sintomático –, com a negatividade. Aqui, ela poderia apontar para uma interlocução com Barthes e a sua noção de desvão. Mais tarde, a Linguística aponta para a questão do caráter pragmático da linguagem literária. Denegação? A recepção, nos moldes de Fisch daria conta de simbolizar a castração imaginária operada pelo texto literário em seu leitor, novamente a ambiguidade.

Hoje, depois de passado o momento em que a “tradição” reinou solene e absoluta como objeto de desejo – Octávio Paz com suas rupturas modelizantes e Hobsbawn com sua fascinada invenção apontam para estas “ruínas” –, os trabalhos da Recepção apontam para novas direções igualmente questionadoras, inegavelmente sedutoras. Uma: a revisão provocada pelos novos posicionamentos da História, Le Goff e Guinsburg seriam dois vetores desta inversão molecular na busca, de verdades, pulsações de desejo... Outra: a revisão de conceitos, caros à Literatura Comparada como o de fontes e influências. Estar-se-ia nadando nas águas de um quinto oceano li­terário, interdisciplinado e rebelde oceano?

No fim, a constatação óbvia: mais um texto se escreveu e se inscreveu. Um texto para ser lido: criando um pequeno horizonte de expecta­tivas, em que a imagem desejada/desejante de um sujeito, de um leitor em toda a sua ambiguidade, foi projetada. Como será a recepção deste texto que, mesmo que não queiram outros leitores, é um texto “literário”? Ah, a etimologia... No fundo, continuam notáveis, perceptíveis, as pulsações de um desejo, sempre o mesmo desejo.

28
Out19

Ecos do passado II

Foureaux

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Não me lembro a origem deste texto. Peno que foi preparação para uma monografia de final de semestre, durante o mestrado. Talvez para a disciplina "Teoria da narrativa", sob a batuta de minha orientadora: Margarida de Aguiar Patriota. O texto foi escrito à cause do impacto do filme O nome da rosa, depois da leitura do romance homônimo.

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A cozinha, a capela, a biblioteca: um elogio à Teoria da Literatura

Conta o folclore, que em reuniões de postulantes à vida religiosa, para identificar a que ordem religiosa pertence determinada casa de formação, bastaria ver onde a luz da tal casa está acesa. Assim, se na capela, a casa seria de beneditinos; se na biblioteca, a casa seria ou de jesuítas ou de dominicanos; se na cozinha, seria, fatalmente, de franciscanos.

A presença do poder da Igreja em suas mais variadas formas e acepções pode ser constatada no discurso literário (ficcional, mais especificamente) do Ocidente, em sua história evolutiva. Desta forma, a iro­nia e o humor com que tais ou quais atitudes dos grupos formadores desta casta podem ser tratados, acaba por conferir certa “dramaticidade” à produção literária que se envolve nas malhas, hoje, vaticanas. Em nome da rosa, Umberto Eco nos apresenta um painel interessantíssimo dessas relações, para gáudio do autor, semióticas. Crimes são cometidos numa abadia beneditina. Um frade franciscano é chamado para desvendá-los – enquanto seus confrades estão reunidos para outros, fins, na mesma, abadia – até que um dominicano chega para envolver toda a trama nas malhas da letra inquisitória. Nada demais, não fosse a profusão de sinais fortemente evidenciadores de intenções muito mais amplas e profundas que a própria realização literária – estética e semiótica poderiam ser outros epítetos tranquilamente acrescentadas – da obra ficcional pretendida. Assim, não é à toa que o monge responsável pela biblioteca da aba­dia/cenário é cego e se chama “Jorge de Burgos”. Coincidentemente, todos os mortos ousaram se aproximar da chave de um enigma que esse monge teria ocultado em “sua” biblioteca. Sintomaticamente, a biblioteca acaba ardendo em chamas: uma alegoria do inferno...

Um outro ponto a considerar diz respeito ao noviço beneditino, auxiliar de Guilherme, cujo nome é “Adso”. Quem não se lembraria de Sherlock Holmes? Toda a sua astúcia não foi suficiente para fazê-lo perceber o pecado contra a humildade – carisma fulcral da ordem franciscana – Guilherme é franciscano, lógico. Pecado cometido repetidamente, intensamente a cada passo dado rumo ã solução do “enigma assassino”. Por último, chega Bernardo Gui, o dominicano. Ele chega com a força e o poder do fogo da Inquisição, “paradoxalmente”, sua grande arma é a palavra. Por intermédio dela, o dominicano interfere na ordem dos fatos e envolve três pessoas, que não articulam discursos completos no corpo da narrativa, nas chamas da Inquisição.

Estes três tópicos são aqui considerados por se relacionarem diretamente com os três pilares da trama “romanesca” de O nome da rosa. Dom Abade e as vítimas demonstram a prudência, o equilíbrio e o senso de “segredo” peculiares à família de São Bento. Os franciscanos que se encon­tram para discutir a pobreza de Jesus se assustam com a vaidade e o sen­so prático de Guilherme, um “anátema”: ele peca pelo excesso de vaidade. Bernardo Gui dirige o tribunal da Inquisição que se instala como forma de demonstrar o poder da Igreja de Roma sobre as “questões terrenas”. Vale lembrar que o senso pedagógico e a palavra (por extensão semântica) marcam o carisma da intelectualidade do batalhão de Santo Inácio de Loyola.

Isto traduzir-se-ia como vulgaridade de leitura, ingenuidade, não fosse a articulação ficcional que estabelece um sentido logico, “racional” para a obra, enquanto narrativa. Pode-se dizer que se trata de uma obra que “celebra” o gênero “romance policial”. Há uma série de assassinatos. Coincidentemente ou não, os primeiros a morrer são jovens, e a idade das vítimas vai aumentando na medida em que o suposto volume sobre a Comédia, escrito por Aristó­teles – uma contrapartida, complementar, à Poética –, vai sendo colocado como pomo da discórdia instaurada na abadia. A homenagem ao argentino Jorge Luis Borges e sua Biblioteca de Babel é inequívoca. A sequência do incêndio evoca o dogma do inferno e os primeiros versículos do Eclesiástico, simultaneamente.

É interessante notar como todos os elementos, que articulam uma outra leitura para o romance de Umberto Eco estão à vista. Esta presença evidente, apesar de não destacada, pode ser usada para a estruturação de um outro discurso (ou poderiam ser outros...) que perpassa subliminarmente o próprio texto. Há um livro interdito, sobre o qual pouco se sabe e muito se sus­peita. Existe uma pessoa que o encontra e que guarda sob sete chaves o enigma que o envolve e que é responsável pela trama “macabra” do romance. Não há assassino! O livro é quem mata aqueles que dele se aproximam. A beleza, a juventude, a magnanimidade, a inteligência, a humildade, a prolixidade são, todos, elementos de uma mesma estrutura: a vaidade. Esta desfaz-se como fogo...

nome da rosa descreve um roteiro que aparentemente vai dar em lugar algum – ou poderia ser, vai dar em todos os lugares. Todas as in­ferências podem encontrar pontos-de articulação suficientemente consistentes. A busca do infinito nasce com o gênero humano e sua racionalidade busca engendrar caminhos que tentem encontrar a saída para os embates  que se organizam. Teologicamente, haveria muito mais que discutir pois as três famílias religiosas se dissolvem em seus carismas semioticamente caricaturizados no bojo do romance. Haja vista as citações em latim, que são para­fraseadas no texto, a cada momento. Não é à toa que o livro tem uma divisão em capítulos que reproduz as “horas litúrgicas”, prática institucional dos mosteiros e, neste caso específico, também, parecem lembrar a estruturação da própria Divina Comedia, de Dante.

Do ponto de vista narratológico, a semiotização do romance, enquanto discurso urdido, promete-se tão rica que qualquer comentário tomaria o espaço de um ensaio. Basta lembrar, por exemplo, e mais uma vez, a profusão de alegorias construídas no correr do texto e a narração, quase gêmea, dos clássicos policiais, tão repetidos e reaproveitados. Neste ponto, abrir-se-ia outro capítulo, pois teríamos que tocar em duas práticas bastante valorizadas e utilizadas, até, pelo próprio romance: a intertextualidade e a paródia. Algo que caminha para o caráter de pastiche, que marcaria o espírito pós-moderno que, insidiosa e capciosamente vai orientando a narrativa enquanto discurso, como qualificado no início deste parágrafo.

Levantaríamos, se fosse possível, uma série longa de dados que dariam consistência à afirmação capital, pretendida por este texto; a leitura de O nome da rosa oferece a oportunidade competente para experimentarmos nossa capacidade crítica enquanto teóricos da Literatura. Em outras palavras, não seria exagerado (e completamos: talvez, mesmo, nada original) dizer que o romance desenvolve de maneira exemplar a Teoria da Literatura que o Ocidente tanto preza em valorizar, estudar, compreender e experimentar. A busca de um arquitexto, que daria a chave final para todas as equações narrativas – que se propuseram depois da Poética de Aristóteles. Este arquitexto acaba queimado na ficção de Umberto Eco. No filme, a sequência final do incêndio, quando Guilherme sai da biblioteca chamuscado, deixando cair do hábito ratos e livros, é muitíssimo significativa. Este arquitexto, enquanto solução, é a própria utopia da Literatura. É a tentativa de impressão de um desejo, 0 próprio livro faz isso...

Referências bibliográficas

GENETTE, Gerard. Introdução ao arquitexto. Tradução de Cabral Mar­tins. Lisboa, Vega, s.d. Serie Universidade.

LIMA, Luiz Costa. O fingidor e o censor: no ancien regi­me, no iluminismo e hoje. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1988.

SANTIAGO, Silviano. O narrador pós-moderno. In: Nas malhas da letra. São Paulo, Companhia das Letras, 1989, pp. 38-52.

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24
Out19

Ecos do passado

Foureaux

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Faz algum tempo, publiquei aqui os textos que foram escritos como monografias para avaliação de disciplinas cursadas durante o mestrado que fiz na Unb. Desta feita, retomo o mesmo ímpeto de publicação, com a diferença de que vou trazer textos similares, mas apresentados durante o doutoramento.

Sobre uma natureza das tesouras

 

 Porque Narciso acha feio o que não é espelho.

Caetano Veloso

 

 O confronto entre as perspectivas do comparativismo e as teorizações acerca da recepção literária, suscita apresentação de propostas de retomada desta linha de pesquisa, numa perspectiva renovada, buscando encontrar possíveis encaminhamentos para questões pertinentes à leitura específica de textos literários, quer em sua particularidade intrínseca, quer na articulação deste com outros textos e discursos afins. Este trabalho articula-se à pesquisa de doutoramento realizada pelo autor, na tentativa de elucidar um caminho de reali­zação literária para o discurso de constituição do sujeito.

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A mulher tem cara de pateta. É revendedora de uma famosa marca de produtos de beleza. Tudo em sua vida gira em torno disso. Ela mora em uma cidade pequena e provinciana, perto da qual existe um castelo abandonado, muito antigo. É casada, tem dois filhos e o marido trabalha na mesma fábrica em que trabalham os maridos das outras mulheres, suas clientes. A personagem em questão vai ao castelo, num dia comum de trabalho. Entra e encontra um rapaz estranho: cabelos arrepiados, num corte esquisito; uma roupa preta cheia de cintos, amarras e remendos; a cara toda marcada por cicatrizes e, no lugar das mãos, tesouras. Sua expressão é absolutamente angelical. Ele é um misto de FranksteinBlade runner e Brinquedo assassino. Sua expressão é absolutamente inocente, angelical mesmo. A mulher traz o rapaz para sua casa. Em rápidas palavras, ele conquista toda a cidade. É quando, numa série de equívocos, aqueles que o acolheram, o escorraçam. Uma inversão só cabível num con­to de fadas. Trata-se de alguma coisa muito próxima disso.

A sequência inicial do filme Edward, scissorhands, não dá conta de preparar o espectador expectante para as surpresas que a his­tória reserva. O filme não tem muito de profundo, mas ultrapassa, e muito, o estreito limite da ingenuidade. Posto que é uma obra de arte, já se chegaria à conclusão de que não há ingenuidade neste “ar­tefato”. Com este status, o filme é exibido para ser recebido. E neste particípio verbal está a seta de orientação de minhas observações.

Todos os habitantes da cidade ficcional, que sintomaticamen­te não tem nome, ficam excitados com a chegada de Edward. A representante dos produtos de beleza se preocupa com os mínimos detalhes até o momento em que o contato se estabelece entre a população e o rapaz. As relações são também, inicialmente, amigáveis. O controle dela começa, então, a perder eficiência quando a série de equívocos tem início. Edward é vítima desses equívocos. A ingenuidade desta personagem não deixa que ele ultrapasse a faixa da infan­tilidade de suas associações e reflexos. Ele volta a seu lugar de origem: um velho e empoeirado prédio antigo. Cheio de teias de aranha. Ha uma série de elementos que consubstanciam a grande metáfora no texto fílmico. Ela é apenas suscitada. Então, na cena final, aparece uma velhinha contando uma história para sua neta antes de dormir...

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Nos estudos de Literatura Comparada, a moda parece ser a dissenção e a diferença. De modo bastante generalizado, tudo aquilo que faz pressentir um movimento de volta às origens tem a chancela do vulgar, do pobre; e acaba alijado das esferas mais sublimes do comparativismo. Num determinado sentido, é sempre isso que se faz: isolar, desdenhar. As coisas parecem, então, tornar-se menores. As­sim, não tenho medo de afirmar que a Teoria da recepção – dever-se-ia utilizar a expressão Estética da Recepção? – tem sofrido, de certa maneira, o influxo de uma crítica tendenciosa que teima em limitar a recepção literária ao estudo de fontes e influências. Esta última expressão, como é de conhecimento de todos, está carregada de sentidos pejorativos, narizes torcidos e caretas. Sou forçado a concordar com Regina Zilberman quando diz:

 

Oferecer a estética da. recepção como um novo figurino ou esperar que ela encontre seguidores e adeptos entre nós, seduzidos por suas promessas e já saturados de alguma outra corrente crítica ou filosófica, é não apenas ter uma visão frívola da Teoria da Literatura ou do intelectual brasileiro; signifi­ca também colaborar para a alienação e dependência culturais, de que aquela frivolidade é um dos sintomas.

 

É evidente a abrangência da observação de Regina. Não vou elucidá-la por completo. No entanto, quero chamar a atenção para a tentativa de esclarecimento que ela contém: os estudos de recepção literária não se propõem uma inovação absoluta e inflexível da Teo­ria da Literatura. Muito antes pelo contrário, a Estética da Recepção, para utilizar a terminologia da autora, pode auxiliar no trabalho da teoria que acaba alargando o campo de atuação da Literatura Comparada. Isto, na medida em que não postula uma originalidade epistemológica. Ela é mais um meio de concentrar a atenção no particularmente literário, apesar de sobrevoar outras latitudes. O que eu quero dizer, é que, com a orientação teórica desenvolvida a partir de 1967, na Escola de Constança, hoje é possível colher melhores frutos em nossas especulações críticas e teóricas em torno do emblema Literatura Comparada. Especulações críticas e teóricas sim, pois nada pode ser tomado com absoluta e definitiva chancela de conclusão final nesta matéria. Haja vista a vastidão do campo de trabalho que a Literatura Comparada se propõe.

No desenvolvimento dos estudos literários, a Estética da Recepção representa um “ponto de mutação” na orientação dada a estes estudos. A História passa a ser valorizada no computo geral de diversos elementos com alguma influência, no quadro delineado pelo que se tentou chamar de “ciência literária”. Ora, a História não se restringe a uma escavação de verdades fossilizadas que vão dando um sentido, a cada momento de atualização da existência humana em cur­so. Desta forma, este posicionamento “novo” condiciona os estudos literários a seu aspecto, processual, à sua duração, no sentido de uma constante modificação e desenvolvimento. Não se trata apenas de uma renovação, de retirar a pátina do tempo, depositada sobre os sentidos obliterados pela “cegueira” hermenêutica da própria Teoria da Literatura a cada passo. Todo e qualquer movimento neste campo não pode abrir mão do leitor, sob pena de perder absolutamente sua razão de ser. Este elemento aponta, possivelmente, para uma questão muito mais ampla: a construção de uma imagem. A terminologia pode parecer exageradamente abstrata ou, mesmo, estéril. No entanto, quero ressaltar que, com a preocupação voltada para o ato da leitura – como jogo de relações efetivas entre os diversos elementos envolvidos – a Estética da Recepção começa a articular a questão do sujei­to. Sou eu quem quer pensar assim. Outra não parece ser a leitura possível de um elemento que, no curso das teorizações da recepção literária, recebe vários epítetos: o leitor. Este é um sujeito, operador e operado na/da/pela leitura. Sujeito na dupla acepção da pa­lavra. O sujeito-leitor é o elemento que, no final das contas, vai dar sentido ao sentido geral gerado pela obra literária, ou aos sentidos possíveis desta. E isso é um processo. Desta forma, é forçoso concordar com Jauss, no sentido de negar a autonomia absoluta do texto. Ele não pode se sobrepor ao sujeito “por contar com uma estrutura autossuficiente, cujo sentido advém tão somente de sua organização interna”. Isso é uma posição tendenciosamente perversa.

Entre tantos outros aspectos, este me interessa em particular: qualquer um dos direcionamentos teóricos que podem ser considerados para os estudos da Estética da Recepção, sempre tomar-se-á como ponto de referência, a relação estabelecida entre o texto e o leitor. A ênfase ora num ora noutro desses elementos vai mudar, é claro. O problema da historiografia-literária, como pano de fundo para estes estudos prevalece. Este pano de fundo acaba se tornando, por força das circunstâncias, o conjunto de objetivos “finais” des­ta mesma historiografia. O que desejo destacar e a emergência desta imagem, desta “figura”, como já citado. O leitor vai ser, sem certo exagero, o objeto de desejo das teorizações da Estética da Recepção. O ponto de partida aqui é a consideração de que o leitor é sempre uma “construção” – tal como as personagens e, mesmo, o narrador. Estou falando do leitor ideal – generalizando todas as “classificações” que este recebe ao longo, dos estudos de recepção literária. Em termos de comunicação e na particularidade estética da comunicação literária, não se pode negar que o receptor é sempre uma construção “ideal”. Ele já está disseminado no próprio texto. Desta forma, a Estética da Recepção se coloca também uma outra questão: a possibilidade, mesmo que tênue, de delinear o esboço do que seria o público leitor de determinada obra literária, stricto sensu. É nes­ta altura que eu gostaria de colocar como análoga, a questão do su­jeito. Trata-se obviamente de um desejo.

A literatura é resultado de um trabalho com a linguagem. Ela é linguagem. Neste processo, pelo menos três elementos são essenciais: quem escreve, o que escreve e quem lê ou articula o que está escrito. Se tomarmos a ideia de que o sujeito se constitui na e pela linguagem, é possível pensar na analogia proposta. O “leitor adequado” é desejado pelo crítico, depois de ser desejado pelo escritor, mesmo que inconscientemente. O crítico tra­balha com os postulados da Estética da Recepção, na medida em que se coloca no âmbito de um possível horizonte de expectativa a ser reconstruído. Isso para não dizer que este mesmo horizonte de expectativas é provável, o que implicaria em outras formulações de senti­do. Este horizonte faz parte dos elementos fragmentariamente disseminados no próprio texto, objeto de especulações do crítico. O aspecto “pretensioso” da Estética da Recepção facilita certas aproxi­mações. Uma delas é a que se esboça aqui. Esta pretensão pode ser entendida como um desejo desta modalidade de crítica literária; por que ela também se volta para a Literatura, enquanto texto que possui uma certa autonomia. Não há condições de estabelecer, portanto, parâmetros definitivos para o horizonte de expectativas. O sentido, ou os sentidos, poderiam ser concretizados de diferentes maneiras, su­pondo então sua sujeição a diferentes necessidades e contextos. Por que não pensar aqui em desejos?

A palavra sujeito supõe duas leituras para seu próprio sentido. De um lado, é o indivíduo responsável pelo texto em si mesmo, aquele que o escreveu; ou ainda, aquele que está submetido pelo tex­to. Sujeito, aqui, equivale a uma estrutura de sentido. Não se tra­ta efetivamente de um indivíduo, mas de um sentido possível a ser concretizado, mais um sentido, outro sentido, talvez. E concretiza­do por meio da estruturação da linguagem nos próprios textos que venham a ser escritos e lidos.

Seguindo a ideia de sujeito, tem-se a ideia de estrutura. Esta ideia pode ser tomada como mais um ponto de apoio para a deseja­da proposta de aproximação esboçada aqui. Nestes termos, é necessário lembrar que alguns dos teóricos da recepção, senão a sua grande maioria, devem muito ao Estruturalismo, tão em moda nos anos 50/60, o que não os desautoriza. Sem entrar em aprofundamentos indesejados, é bom que se diga que a ideia de estrutura perpassa os trabalhos de Riffaterre e de Stanley Fish. Articulando noções, da Linguística, eles procuram, na observação do trabalho estilístico realizado no texto, uma possibilidade de se entender uma das concretizações de sentido que o próprio texto possi­bilita. Da mesma forma, mais recentemente, Umberto Eco, trabalhando com material da semiótica e o equivocado Antonio Garcia Berrio, perdendo-se num labirinto de impressionismos, travestidos de conside­rações psicanalíticas sobre a lírica contemporânea, Eles são dois outros exemplos de teóricos que, partindo da noção de estrutura, desenvolvem abordagens muito instigantes, curiosamente convergentes, no que diz respeito ao elemento que, em termos de comunicação, se chama receptor. No âmbito dos estudos da recepção literária ele é identificado como sujeito.

Nas diferenciações provocadas durante a leitura, pelas diversas linhas perseguidas pelos estudiosos, uma outra questão que se coloca subjaz à própria proposta de sistematização da Estética da recepção como disciplina integrada ao comparativismo. Ela se encontra atualizada sob aspectos diferentes; trata-se da leitura enquan­to interpretação. Partindo deste elemento, é possível apontar para outras direções no propósito aqui delimitado. É mais que sabido que o sentido de uma obra não é único. Na medida em que se aceita operacionalmen­te o fato de que a linguagem dissemina e fragmenta o sujeito, como faz com o sentido do texto, há de se supor que o leitor, enquanto uma representação adequada deste sujeito, uma instância do texto, não é igualmente único. Outra maneira de ver este ponto é pensar nas estratégias que o texto articula e potencializa, na tentativa de representar os sentidos possíveis de si mesmo. Ainda assim, a presen­ça de um sujeito é mais que necessária, é essencial.

No entanto, na articulação de mais esta rede de significantes, escapa alguma coisa. O adjetivo “adequada” é o representante desta coisa. Ele é o significante de uma subjetividade que elabora critérios e determina parâmetros para a desejada chegada a um destino indeterminado: o sentido. Em sua multiplicidade, que nega toda e qualquer unidade absoluta, total, unitária mesmo, o sentido é outra instância textual que aponta para um desejado equilíbrio de forças, na relação que mantém com seu agente concretizador: o leitor, o su­jeito. É mais uma das possíveis estratégias do texto, por que não?! Contraditoriamente, este também não é único. O advérbio aqui utili­zado confunde e esclarece. Confunde porque poder-se-ia supor uma coerência natural, dada, entre as multiplicidades análogas de leitor e de sentido. Esclarece por que o que se busca nesta relação analógica não existe, não tem consistência mas apenas representação. Nestes termos, pode-se dizer que este elemento buscado concretiza-se num desejo: elemento móvel, dinâmico e dinamizador, que nunca se satisfaz. Se fosse possível discorrer aqui sobre uma teoria do desejo, seria igualmente possível apontar para uma unidade perdida. Uma origem totalizadora que se perdeu num tempo, talvez arcaico e impulsionador deste processo, sempre na direção de um “a mais”. É bom que se diga que esta unidade nada tem a ver com a consciência racional pensante de Descartes. Estamos, todos, um passo adiante.

Tentando colocar os pés no chão, retomo o fio da história. A Estética da Recepção, em sua diversidade de abordagens de um mesmo “fenômeno hermenêutico”, possibilita essas aproximações, pelos sim­ples fato de que parte de um pressuposto bastante instigante: o re­torno da crítica e da teoria literárias para o segundo polo da efe­tividade comunicativa na Literatura, esteticamente realizada no texto: o receptor, o leitor. É evidente que muitas das especulações aqui suscitadas podem ser tomadas no sentido do autor. No entanto, a proposta inicial da Estética da Recepção e destas anotações é o leitor, o sujeito. Assim, a repetição tenta reafirmar a validade das especulações e suas particularidades, de caráter apenas circunstancial. O que faz possível recolocá-la no âmbito do comparativismo.

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Dizem que um exemplo vale mais que mil palavras. Enquanto escrevo este texto, penso no trabalho que uma gravadora realiza para a produção de um disco... Paralelamente, penso na busca de definição de uma estratégia de marketing que se concretiza na publicação de uma revista. Em ambos os casos, análogos à situação de um livro, o marketing dita as regras de funcionamento do jogo, para que o prazer catártico efetivamente se concretiza na venda e na leitura/audição do produto. A atualidade dos termos e da estratégia não desmerece o exemplo, em reação à Estética da Recepção, na Literatura.

O comércio, tem demonstrado, cada vez mais, a sua necessidade atávica de atingir um público sempre maior, mesmo que as condições econômicas não sejam compatíveis, adequadas, aos projetos do comér­cio. O que destaco aqui é a importância da determinação dos traços característicos da clientela potencial para o produto a ser lançado. Neste ponto, o marketing e suas estratégias são obrigados a definir, pelo menos em termos de expectativa, de desejo portanto, o tipo de cliente, a cara do freguês, o perfil do consumidor adequado para aquele produto. Qualquer semelhança não terá sido mera coincidência... Em outras palavras, quem vende, produz ou escreve, deseja que tal ou qual tipo de pessoa goste do que lhe é oferecido. Guardadas as devidas proporções, acredito na efetividade deste exemplo, praticamente conclusivo. Ele está aí para ser recebido, ou seja, lido, analisado e criticado. Só desejo, agora, apresenta-lo.

 

Referências bibliográficas

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. Tradução de Waltensir Dutra. São Paulo, Martins Fontes, s.d., p. 59-96. Fenomenologia, Hermenêutica e Teoria da recepção.

ISER, Wolfgang. Problemas da literatura atual. In: LIMA, Luis Costa. Teoria da Literatura em suas fontes. 2 ed. rev. e amp. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1983, vol.2, p. 359-383.

LACAN, Jacques. Écrits. Paris, Éditions du Seuil, 1966. p.793-828. Subversion du désir dans l’inconscient freudien.

________. O seminário – Livro 20 – Mais, ainda. 2 ed. Tradução de M.D. Magno. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985.

LIMA, Luis Costa. A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979. p.9-39. Introdução: o leitor demanda (d)a leitura.

OLGILVIE, Bertrand. Lacan: a formação do conceito de sujeito. Tradução de Dulce Estrada. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988. Transmissão da Psicanálise, 3.

Zilberman, Regina: Estética da recepção e a história da literatura: São Paulo, Ática, 1989. Fundamentos, 41.

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15
Out19

Devaneio

Foureaux

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Uma insinuação não é nada. Nada. Não se sustenta e pode incorrer em erro. Quem disse isso? Não faço a mínima ideia. Alguém já disse isso? Também não tenho ideia. O fato é que isso me veio assim, de repente, um corisco verbal. à minha mente chegou como quem não quer nada e se instalou. De tal maneira que não resisti e coloquei pra fora, em palavras. Assim, do jeito que está escrito acima. Sem mais. Uma ideia repentina e livre de qualquer volição. Talvez tenha sido a manifestação de algum resíduo recalcado dos dias letivos do passado. São trinta e dois anos. Haja resíduo. Haja recalcamento. Mas fazer o quê. A vida que segue – ai que expressão mais chinfrim – e continua a comemorar o dia do professor. Comemorar? O quê, de fato? Há mesmo motivo de comemoração? A sério? A dúvida é maior, nem maior que o conjunto de frases feitos e ditos coloridos e altruístas que circulam anualmente em data análoga. De fato, no frigir dos ovos é mais uma data, apenas uma data, um dia como qualquer outro. Não fosse pelo fato de se comemorar também o dia de uma das mulheres mais importantes que o planeta já conheceu: Teresa de Ávila. A Teresona, como costumo tratá-la, crente de que sou íntimo dela. Assim como do Joãozinho, seu conterrâneo, outro portento a habitar os rincões do seráfico planeta dos santos. Seráfico é uma palavra tão elegante, sonora, conspícua, chique, bonita. Ai, ai... Pois é, mais um dia do professor. Mas não vou ficar lamentando as vicissitudes de profissão tão vilipendiada em pindorama. E basta! Parece até que falta assunto, mas não falta. Terminada a leitura da trilogia que apresentou António Lobo Antunes ao mundo da Literatura escrita em Língua Portuguesa, localizadamente em Portugal – pois a tal Língua Portuguesa é falada e escrita e outras partes do planeta – pensei em escrever aqui algumas linhas. Talvez resenha, talvez crítica. Não sei dizer. Seria, isso sim, um texto nascido de leitura que refis dos três títulos. Mais não digo pois ainda não descartei esta ideia. No entanto, a dona preguiça tem vencido a luta até agora. Vamos ver o que vem por aí. Outra possibilidade seria falar de algum assunto, assim, mais comezinho, mais rasteiro, para fazer eco ao que se “lê” por aí, neste universo que preza pela pressa, pela superficialidade e pela falta de “cuidado”. Desisto, não vou fomentar mais uma paranoia social. Há que anotar a ida a uma sala de projeção de centro de compras – o edifício chamado honrosamente de “cinema” já quase não existe mais – para ver a cinebiografia da Hebe Camargo. Tenho a impressão, neste exato momento, de que já comentei aqui sobre isso. Pelo sim, pelo não, repito: gostei. Dois livros de prosas continuam empacados. Um de poesia, cozinhando em banho maria – com água bem fria – no prelo da Patuá, em São Paulo. Outro, em germe, ainda nos rascunhos de um arquivo perdido no One drive. O livro das cartas de Alberto, ainda na minha cabeça, e mais nada. E o tempo passou. E uma página se encheu. E eu fico por aqui.

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