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Espaço para explanação, discussão e expressão...

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Espaço para explanação, discussão e expressão...

21
Set20

Experiência

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Depois de trinta e seis postagens, em série, com algumas interrupções, encerrei a publicação do material a compor seis dos oito ou nove capítulos de um livro que estou tentando escrever. Trata-se de uma segunda experiência estética. Pela segunda vez, procuro utilizar o princípio motor da poética aldravista – a metonímia – para construir uma narrativa de ficção. Claro que está que tal texto não há de se parecer com um romance, em sua conceituação mais comum, tradicional, para não dizer clássica. Geralmente, ainda que de forma não linear, os romances acabam por contar histórias. Mesmo aqueles em que nada parece acontecer – há alguns exemplos muito instigantes e bons da Literatura Portuguesa, no conjunto de obras de João Tordo, ou mesmo de Valter Hugo Mãe. No Brasil, algo em torno de certa parte da obra do Caio Fernando Abreu, ou do João Gilberto Noll e até mesmo do Bernardo de Carvalho – sonhei um dia em escrever um ensaio interpretativo do conjunto de suas narrativas longas. A preguiça ainda não me autorizou... Esta “tradição” está muito longe do horizonte de expectativas da narrativa ficcional a que me proponho neste livro. Fiz esta experiência uma vez e resultou num livro que já está no forno (deve sair entre o final deste ano e o início de 2021. Seu título é Tanto ruído no interior desse silêncio. Não vou explicar o sentido ou o que desejo dizer com este título. Atenho-me a esboçar algumas linhas narrativas da ficção que estou por concluir. O título provisório é O hexaedro de Sísifo. É óbvia a referência ao mito de Sísifo e à figura geométrica do hexaedro. “Hexa” é prefixo que significa seis. Logo, a remissão à aldravia: forma poética genuinamente aldrávica que prima pelo princípio absoluto do movimento metonímico da linguagem a articular seis vocábulos como seis versos. Seis são os tópicos da Psicanálise oferecem nova pista ao leitor que se aventurar a ler esta ficção: paranoia, esquizofrenia, associação, desejo, histeria e neurose. Para cada uma, seis depoimentos. Estes podem ser de um só paciente, como podem ser de pacientes diversos. Vai caber ao leitor determinar. As anotações, feitas por um(a) psicanalista, são acompanhadas de considerações teóricas sobre cada um dos tópicos. As anotações não querem, a priori estabelecer relação direta com os comentários acerca de cada um dos tópicos. A reunião de cada conjunto de seis depoimentos sob a tutela de cada um dos tópicos é absolutamente aleatória... ou não! Este final de frase lembrou o chato Caetano Veloso. Ai como ele está chato. Um poeta de mão cheia, mas um chato. Consegue ser mais chato que eu! Os outros capítulos são mais triviais. Falam da biografia do(a) psicanalista (quem será o(a) autor(a) destas informações?), de sua apresentação (será ele(a) mesmo(a) a se apresentar?). Tudo depende única e exclusivamente do leitor. Exceção feita à organização do texto, sua estruturação e apresentação gráfica. Isto é um projeto estético. Não cabe ao editor dizer que está errado, ou que cansa o leitor, ou que faz a leitura ficar lenta e difícil, ou.... ou... ou... Nada disso! Por fim, depois do “hexa” há que apontar para o mito. Daí, fica só uma dica: a infinda sentença do gajo que tinha que empurrar um pedra colina acima. Lá chegando, a pedra rolava, colina abaixo. E tudo começa de novo. Preciso desenhar? Quando do lançamento, faço saber. Quem sabe alguém se arrisca a comprar e ler o livro...

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10
Set20

36

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O álibi perfeito seria o jantar com a esposa. Ninguém poderia desconfiar que àquela altura ele poderia estar fazendo o que fez. A esposa não faltaria com a palavra. Não haveria como contestar os dois depoimentos. O fato de serem casados, neste caso, não teria qualquer importância pois nenhum dos dois estava sendo acusado. Eram apenas suspeitos, numa lista enorme que contava com nomes muito mai “quentes” para o tal fato. Ainda assim, ele estava preocupado. Tudo tinha sido planejado milimetricamente e seria um desastre que, justamente no final, tudo se esboroasse. O dinheiro já tinha sido transferido. Os imóveis arrestados e o que sobrou de bens já devida e legalmente organizado. Agora era pegar o avião e voltar. Aquele lugar ficaria apenas na memória fotográfica de alguns poucos que anda acreditavam que nada daquilo havia acontecido como aconteceu. Nada. Sua mulher, ainda ressentida pela desconfiança da traição dele, estava ressabiada. Mas a cada dia ele procurava intensificar mais e mais sua atenção. Ela começava a acreditar que a denúncia anônima, recebida numa mensagem telefônica, não tinha fundamento. Seu amigo investigador, bem que tentou rastrear o telefone de onde saiu a mensagem. Em vão. O tal aparelho era do tipo descartável. Não há como conseguir rastreá-lo. Encontraram um chip jogado no fundo do quintal de uma casa abandonada na periferia. Só isso. Ela queria acreditar que seu marido era fiel. Ao final, ele foi absolvido. A tal sócia foi arrolada como suspeita. Seus advogados de defesa conseguiram a absolvição. Ela ameaçava o marido dizendo ter sido ele a assassinar o outro sócio, para ficar com a maioria das ações da companhia em que trabalhavam. Nem tudo estava assim tão claro. Foi quando seu corpo apareceu boiando no rio que cortava a cidade. Um buraco na cabeça. Não foi tiro. O mistério continuava insolúvel e o “caso” foi arquivado. Parece que não deu em nada. O tempo passou e ela mais crente ainda na fidelidade marital. Ele continuava viajando e, obviamente, traindo a mulher. Num dia qualquer, de uma semana qualquer, por um motivo qualquer, a mulher é levada a procurar por um livro de receitas e vai ao sótão da casa. Muitas recordações. Fotos antigas de seus pais. Filmes em Super8 das férias na praia com as crianças. Cartas, berloques, móveis empoeirados e caixas, muitas caixas. Ao se deparar com o que procurava, puxa a caixa onde estava o dito caderno. Ao arrastá-la, vem junto um retalho de tecido amarfanhado, endurecido, um tanto avermelhado. Estranho objeto. A mulher puxa até perto de si e descobre, enrolado nesse tecido, um martelo. Há alguma coisa agarrada a ele. Pustema. Parece cabelo enrolado. Esquisito. Quando o marido chega em casa, chama por ela. Ele vai até o quarto. Ela está sentada, com o martelo na mão. O marido a encara, mudo, paralisado. É como se você revisitasse um romance importante. As cenas se repetem mentalmente. Os detalhes vão se embaralhando, perdem-se numa poeira ósmica de confusão de falta de nitidez. Parecem vidrilhos de um caleidoscópio que não funciona. Você acorda, lembra-se de tudo com uma nitidez absurda. Quando vai começar a relatar, começa a se confundir. lapsos de memória atrapalham sua narração. As incerteza fazem você tremer, gaguejar. Você começa a chorar e nada parece fazer sentido. Por que a imagem daquele corpo ensanguentado sempre volta? Não há situação em que ele não apareça, de relance, como um corisco que passa. Flash. Nada faz muito sentido. Sua certeza se desfaz em dúvidas que se multiplicam e, por vezes, parecem mais seguras que a própria certeza. Confusão. falar não adianta. Chorar muito menos. O médico volta a perguntar e você se lembra de uma mulher que faz um alerta. “Não abra aquela porta”. que porta? A busca por explicações é cansativa. Você continua a escrever e os sons das festas que ele dava continuam a reverberar, O marido da moça era um tipo grosseiro. Rico, mas grosseiro. Ele vinha de uma família pobre, honesta, trabalhadora, O namoro aconteceu por acaso. A cidade pequena não comportava o namoro de um rapaz pobre com a filha do homem mais rico do lugar. Vilazinhas de interior são assim. Aldeias são. Veio a guerra. O tempo passa. Ele volta, milionário. Os negócios escusos não precisam ser desvelados. Os fins justificam os meios, ele acredita. A sedução começa, com certa facilidade. A mocinha amou mesmo o rapaz pobre e se ressente da grosseria do marido. Mesmo a boa vida que leva parece não ser suficiente para aplacar a confusão afetiva em que ela vive. Atormentada. Dividida. Tudo era uma questão de tempo. E ele acreditava. Ela chega a ceder uma vez. E você continua a escrever. Ainda que não entenda muito bem o porquê de tudo aquilo. Loucura? Nada de explicações. Até que uma tarde, sozinho em casa, pensando nela, ele leva um tiro e cai para a piscina. Ela sai em viagem com a família. E você continua a escrever naquelas folhas amareladas, Será que existe mesmo uma explicação?

08
Set20

35

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Um escritório de advocacia que se preze, deveria ter, no mínimo, duas secretárias. Uma, interna, para os contatos diretos com os profissionais da banca e seus afazeres. A tramitação de processos, agendamento de reuniões e visitas, a manutenção dos prazos e da documentação necessária. A outra, externa, para o atendimento de clientes e não clientes, para os contatos telefônicos e para cuidar da correspondência eletrônica – dado que hoje, ao que parece, a correspondência em papel não é “politicamente correta”. Ai, que chatice. Pois é... Mas não é bem assim que acontece. Você liga e é mal atendido. A pessoa que atende – geralmente uma mocinha com voz melíflua, de quem está de saco cheio de ter de atender ao telefone – não diz coisa com coisa. Responde com desdém às perguntas e nunca sabe de nada. É incapaz de oferecer-se para anotar um recado, ou pedir o número para retorno da ligação. Não. Atende mal, não se importa. Tudo fica por isso mesmo. Toda vez que você liga, é assim. Sempre repetindo a mesma coisa. Da mesma forma, a mesmíssima sensação de incredulidade acomete a quem entra numa livraria à cata de um livro. Soe acontecer de o/a balconista estar de braços cruzados, com cara de enfado, querendo dizer que não tem saco pra fazer o que está fazendo. Você entra, dá boa tarde, e a pessoa não responde. Daí você começa a perguntar sobre o livro que procura. Antes de mesmo de chegar à segunda letra do primeiro nome do autor, o/a balconista já responde com um redondo, oco, triunfante e asqueroso “Não!”. Com exclamação e tudo. E ainda devolve um olhar de vencedor sobre a plebe ignara – neste caso, o imbecil que pede pelo livro – você! A sobrancelha arqueada, o ar petulante de superioridade, um sorrisinho de Gioconda mal ensaiado e você é obrigado a mandar a criatura para a puta que o/a pariu. Xingar o cérebro eletrônico que ela tem, por guardar os nomes de todos os livros de todos os autores enfileirados nas inumeráveis prateleiras da livraria. Isso é que é memória, sim senhor! Uma memória imensurável. Virar as costas e sair xingando a humanidade por simplesmente existir. No entanto, nada como resolver pagar um boleto de uma localidade diferente da que você está. O pagamento vai ser feito num banco que não é o mesmo que está no boleto. O pagamento vai ser feito com dois dias de antecedência. Você só quer aproveitar que está diante de um banco aparentemente vazio e não tem mais nada pra fazer. Aproveita o tempo e quita uma dívida. Ao entrar na tal agência, a surpresa, nem um pouco original. Duas dezenas de caixas, muito bem desenhados em madeira, fórmica e vidro. Duas dezenas. Apenas dois caixas funcionando. Você está no Bradesco. Uma fila digna de anaconda a enrodilhar-se dentro da agência. Você pega a fila, abre o livro e começa a ler. Quase uma hora e meia depois, você chega a um dos dois caixas que estão funcionando. Alguma novidade? Entrega o boleto e o cheque. O boleto é da “caixa”, mas tem o código 033. Já, já, você entenderá o que isso significa. O cheque é o azul da “caixa”. Você entrega para a mocinha com cara de bosta que atende você como se estivesse fazendo um favor impagável. Carimba o cheque todo. Risca pra tudo que é lado. Anota isso e aquilo. Carimba mais um pouco. Na hora de passar o dito cujo pela máquina de leitura de código de barras. Olha pra você irritada (!) e diz que não pode receber o cheque. Você pergunta o porquê. Ela diz que é de outro banco e de agência fora da praça. Você mostra o código 033 e pergunta se ela sabe ler. Se soubesse não diria o que disse, pois saberia que esse código significa “compensação nacional”. Ou seja, o cheque pode ser recebido em qualquer agência de qualquer banco dentro do território nacional. A mocinha não diz nada. Não reage. Não tem expressão alguma, o que também, não é novidade. Você arranca os papeis da mão dela e aos berros, você diz que o problema é que ela é feia, é pobre, é gorda, é mulher, é burra e é uma funcionariazinha de banco, que mexe com dinheiro que ela jamais vai ter e que vai secar atrás de um balcão de banco. Você diz isso aos berros. Um gerente, um homem negro, enorme, vem ao seu encontro com os braços estendidos e você, ainda aos berros, avisa para não ser tocado. Caso contrário, vai chamar a polícia e abrir boletim de ocorrência por agressão física. Tudo aos berros. Cuspindo para os lados. Furioso. Sai do banco e entra na agência da “caixa” na contra esquina da rua onde você estava. Enfrenta outra fila e paga o boleto. Tudo isso, tempos depois, parece muito exagerado. Inusitado mesmo. Tudo isso, tempos depois, você analisa com outros olhos, sob outra perspectiva e não invalida nenhum seguimento de nada, mas é capaz de avaliar que não faria da mesma forma de novo. Isso porque você constata, com o passar do tempo – é inevitável – que as pessoas não vão mudar. Que nesse tipo de situação a atitude vai sempre se repetir, mesmo contradizendo todo o altruísmo fajuto dos discursos de auto ajuda e de coaching que grassam por aí!

04
Set20

Uma lição

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PARABÉNS JUÍZA DANIELE MOURA!

 



Toffoli afirmou que o próximo presidente terá que respeitar a Constituição!

Gostaria de aplaudir de pé a Juíza Daniele Moura.

Veja o que ela postou!!

Essa é a resposta da Juíza Daniele Moura, da EMERJ, ao Ministro Toffoli:

"Não Toffoli, é você e seus colegas do STF que constituem a maior ameaça à nossa democracia.

Foi você quem votou pela libertação de José Dirceu, já condenado em 2a instância, contrariando a lei e a jurisprudência emanada pelo próprio pleno do STF.

Foi seu colega Lewandowsky quem atropelou a Constituição e manteve os direitos políticos de Dilma Roussef no final do processo de impeachment.

Foi seu colega Lewandowsky quem fez de tudo para dar ao presidiário Lula a oportunidade de conceder uma entrevista à mídia em pleno processo de campanha eleitoral, interferindo diretamente no processo.

Foram seus colegas da 2a turma que tentaram de todas as formas revisar a jurisprudência da execução da pena a partir da 2a instância, tão somente para proteger criminosos poderosos.

Foram seus colegas que decidiram não implantar o voto impresso, em decisão que contraria uma lei aprovada pelo Congresso Nacional e devidamente sancionada.

Seu colega Gilmar Mendes se transformou na persona mais detestada do país, após ter se transformado em uma espécie de libertador geral da nação.

Foram vocês que ao invés de reforçarem o papel legítimo de corte constitucional do STF, o transformaram em uma leniente vara penal vip para ricos e poderosos.

Você e seus colegas frequentemente atuam como legisladores, assumindo ilegalmente uma função que segundo a Constituição e exclusiva do poder legislativo.

Vocês atuam não como magistrados, mas como uma bancada legislativa a serviço daqueles que os indicaram para tão alto posto, subvertendo por completo a função e a essência legítima desta corte.

Vocês se constituem em um grave problema. A nova legislatura terá que, dentro do processo legislativo constitucional existente, encontrar formas legais e legítimas para reformar profundamente esta corte, suas funções e mesmo a totalidade dos seus membros.

Vocês é que são a ameaça à democracia que precisa ser anulada pelas instituições democráticas do estado brasileiro."

01
Set20

34

Foureaux

Uma coisa é fazer uma pergunta por mera curiosidade, ou por necessidade de esclarecimento, de aprendizagem. Fazer uma pergunta para alcançar uma resposta. Outra coisa é fazer uma pergunta sem sentido e sem razão. Um silogismo ilógico e sem rumo. Uma terceira coisa é fazer uma pergunta que, em si mesma, já carrega a resposta. E pios: de maneira tendenciosa e, não raro, pejorativa. Isso tem um nome, Isso tem de ter um nome na ciência da linguagem. Há de ter um nome, ainda que este não seja assim uma necessidade irrecorrível. Fica a observação como marco: a percepção de que a malícia ou a perversidade podem conseguir coisas inimagináveis com perguntas desse tipo. Esse terceiro tipo. O universo das perguntas é inexorável. Como o das observações canhestras. Um nome numa lista. O comunicado ao indivíduo assim nomeado: seu nome está na lista de indicados. Você deverá indicar outros trinta nomes. O objetivo é formar um banco de inspetores. Ou seriam auditores. Ou não seriam nada disso. Não importa, O nome estava na lista. Os outros trinta nomes foram enviados e os chamados começaram. Em seguida, quase que semanalmente. Cinco anos seguidos de viagens daqui pra acolá. sertãozinho, Janaúba, Nova Venécia, Curitiba, Brasília, Passo fundo, Salvador, Jandaia do Sul, Valinhos, José Bonifácio, Diadema, Montes Claros, São Paulo. Uma correria entre aeroportos e carros oficiais. Reuniões e almoços/jantares. Cenas hilárias, saias justas e trabalho, muito trabalho. Sempre com a presença efetiva e eficaz de perguntas. Daquelas que desejam uma resposta. Sem mais Cinco anos mais ou menos  ter de ouvir o colega chamar o outro de vagabundo. Era mais fácil encontrar o colega numa sala de espera de aeroporto que na sala de aula. Vagabundo. Tudo por conta de ciúme. “Você nunca indicou o meu nome”. E o nome dele era o primeiro da lista dos trinta que deveriam ser indicados pra começo de conversa. O ciúme e a traição. Tudo fruto de imaginação fértil, de boa dose de paranoia. Nada de racional. E o nome dele estava m outras bocas. Na tentativa de desmerecer os seis anos de trabalho na tentativa de implementação de m projeto importante. Nada deu certo. A saída de alguém com nome de peso. A briga com a carreirista de plantão. Os desentendimentos internos. Numa sequência nefasta de desorganização e falta de tino. Ao fim e ao cabo, a aposentadoria. E depois os ditos colegas montam um circo para responsabilizar quem não fez nada de errado. Nada de mudança.  Tudo sempre na mesma medida, no mesmo ritmo, na mesma sequência. Nem dois anos de intervalo serviram para mudar o efeito da sanha local. O sujeito entreva com sede de novidade. Os projetos pululavam. As ideias de reformulação e adequação a novos tempos na ponta da língua. Certo estranhamento no ar. Não eram precisos mais que seis meses. Um semestre apenas. E tudo voltava como era antes. O discurso era o mesmo. As ideias se repetiam nos erros que se acumulavam como poeira em prédio abandonado. Sem explicação plausível. Como é que podia? O princípio da inércia é que dominava tudo e todos. Os movimentos acompanhavam a mesma lógica. A necessidade de mudança se apresenta. A constatação é feita. Miríades de discursos proferidos a favor da bendita mudança. O prazo se esgotando. Nenhuma ação. Na ponta do laço, no frigir dos ovos, alguém tomava uma atitude intempestiva porque já não era mais possível protelar. Se deu certo, o sucesso era partilhado, discursiva e exaustivamente, na tentativa de angariar sempre mais credibilidade. Se deu errado, o abelhudo que se meteu na frente de tudo e de todos era o responsável. Execrado. Quase executado em praça pública. Oblivium. A pergunta que já traz a resposta, encharcada de cinismo, preconceito e más intenções. Um veterinário cuidando do programa de vacinação da cidade. Absurdo. A capacidade do profissional questionada sob o argumento subliminar da incompetência. O pressuposto de algo que só pode ser comprovado empiricamente, depois do experimento. A falácia que se esquece de que o “gênero humano” situa-se no reino “animal”. Um homem ou uma mulher não são uma espécie de planta ou um tipo de gás ou mineral. Não. Animal. Dizem que racional, mas animal. A inteligência e a racionalidade já são atributos que não mais sustentam uma supremacia absoluta e inquestionável. Ao contrário, muitas das vezes, levam à conclusão contrária. Aparentemente, em muitas situações a tal de inteligência e a tal de racionalidade parecem muito mais efetivas, eficazes e consequentes em seres considerados irracionais. Plantas e minerais guardam certa lógica que não pode ser negada. Já os animais, ditos irracionais. Animais demonstram certas capa idade que destronam a humanidade e sua soberba. E tudo por conta de perguntas que não desejam respostas, mas servem apenas de instrumento para conquistas canhestras e absolutamente inúteis, porque passageiras, e suscetíveis de fracasso absoluto. Só uma pergunta!

31
Ago20

33

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Mais de vinte anos. Desde a primeira vez que a ideia ocorreu, mais de vinte anos. Uma primeira tentativa tinha que acontecer. Não era possível que esta experiência não pudesse ser vivenciada. Não havia motivos para não acontecer. Mais de vinte anos e a oportunidade se apresentou. De repente. Inesperadamente. Por acaso, num momento de ócio, lazer, num intervalo, apareceu a chamada, os critérios e as datas. Tudo parecia conspirar a favor da ideia que demorou mais de vinte anos para se concretizar. Em tentativa, por início, mas já valia apena ter esperado. Tudo muito simples. A preparação do curriculum vitae não era trabalhosa. A carta de intenções não tinha segredo nem dificuldade. Era mandar tudo dentro do prazo e esperar pelo resultado. Aceita a inscrição, começava a verdadeira saga. A aprovação interna. Em três níveis, obrigatoriamente. Sem esquecer de que ali, como alhures, a burocracia agigantava os obstáculos e a falta de espírito de coleguismo e verdadeira valorização do trabalho alheio impunham mais alguns percalços. Pra culminar, os prazos estabelecidos antes mesmo da decisão de mandar os documentos. Havia todo um caminho a percorrer. Cheio de obstáculos, reentrâncias, desvios e atalhos. Uma saga, de fato. O primeiro passo foi dado. A inscrição foi aceita. No contato com a chefia imediata, certa insegurança. A mulher não tinha pulso. Temerosa, marinheira de primeira viagem – jamais enfrentara situação análoga – estava insegura. De nada adiantaram as assertivas afirmações de que a negociação podia dar certo com tato, paciência e muita, mas muita malícia. Ela estava mesmo insegura,  praticamente apavorada. Isso não era nada bom. Alguns posicionamentos foram determinados, o discurso preparado em seus argumentos fundamentais e uma data marcada. Apreensão. Passado o tempo, veio a resposta. O contra-ataque. A dissimulada aprovação que, no fundo, era uma armadilha. Aprovado o afastamento, não haveria possibilidade de aumento numérico do quadro. O período era de vacas magras. Vagas raríssimas e a disputa mais que feroz. Ainda assim, o afastamento foi aprovado, em primeira instância. A segunda, matéria de mera burocracia processual, também não causou espanto. Dois a zero. Mais um passo e estaria tudo acertado. Como havia coincidência com o estágio anteriormente assentado, o pedido final foi de acoplamento. Um período somar-se-ia a outro e nada mudava. Os dois anos se passariam sem problema. A resposta começou a demorar. Na capital federal, durante a entrevista, o compromisso com o processo devidamente aprovado. Era questão de tempo, paciência e burocracia muita burocracia. A data final se aproximava e nada de receber o sinal verde. De novo, da capital federal, o alerta. “O que se passa? O que podemos fazer para colaborar? A quem procurar?”. Todos os contatos repassados. De Budapeste outro alerta. A reclamação da demora. O questionamento quanto à data de chegada. Daqui e de lá, a apreensão crescia e se intensificava. Os prazos para o fomento chegando ao final. Foram gastos extras: o toefl, as cartas de apresentação, os documentos acadêmicos para o tio sam. Tudo junto. Budapeste seria o coroamento de um sonho. Dois coelhos numa cajadada. O adagiário popular ajudando, mas a boa vontade não. Budapeste gritando. Nada de resposta. O telefone tocou numa tarde. A voz irritada da terceira secretária não deixava dúvida: a cama de gato funcionara. “Como é que pode? O que se passa? Você garantiu a aprovação do afastamento!”. A informação enviesada não deixava dúvida: o Cantinflas de araque aprontou uma definitiva. O nutrólogo das gerais. Um merda. Afirmou que já havia aprovado o estágio. Nem sabia onde andava o sujeito. O sabido é que estava nas terras do tio sam. Assim mesmo, com minúsculas. A facada pelas costas. Fatal. O prazo “lá em cima”, perdido. Nada de Budapeste. Cinco anos de geladeira. Cinco anos. Foram mais quatro tentativas. Quatro editais em seguida. Todos com potencial positivo. O perfil adequado. Os prazos obedecidos. Nenhuma das inscrições sequer recebidas. Nenhuma notícia. Cinco anos que passaram rápido. Na quinta tentativa, o retorno: inscrição aceita. O mesmo temor pelo processo moroso, burocrático e, acima de tudo, maliciosa. Havia uma diferença então: o quadro mais numeroso e a inexistência de ameaça oficial. Os pares, no fundo, adoraram a ideia de se verem livres do sujeito por dois anos. Claro que jamais aprovariam a recondução por igual período: previsão presente no edital, juridicamente plausível. Mais fácil, menos insidioso, mas igualmente perverso, pra dizer o mínimo. O destino ficava na mesma região. A aprovação veio, sem direito a remuneração. Não havia prazo para recurso. Legalmente possível e, na circunstância, mais que adequado. Não valia a pena. A burocracia mataria o sonho. Era olhar pra frente e tocar o barco. Foi anos fora, O sonho que demorou mais de vinte anos pra se realizar. Mesmo contra a má vontade alheia: uma realidade.

26
Ago20

32

Foureaux

Os pés de chapa. Dedos mal desenhados e o calcanhar bem mal cuidado – pra não dizer rachado. Todo cuidado é pouco. Tudo o que se diz é lido e pode ser lido de forma diversa da que o sentido primário imprimiu. Este sentido nem sempre é percebido. Quase sempre é distorcido. Todo cuidado é pouco, pois. Mas os pés de chapa tinham dedos horrorosos, estavam bem mal cuidados. Estavam sim. Eram sim. Ainda se fosse esse o detalhe mais degradante. Foram tantos outros. Tantos... De nada adiantaram os mais de vinte anos de relacionamento anterior. Um intruso não reconhece isso. Não é capaz de equalizar o que isso significa. E não é pouco. Vinte, quase trinta anos, se não fossem mais. Ainda que fossem menos, o intruso não saberia, por genuína incapacidade. O clube dos intrusos começou devagar, insidiosamente. A aparente humildade do rapaz do interior que vem morar na cidade fez seu papel. Desempenhou com galhardia a persona simples, aprendiz, que respeita os laços de amizade e a experiência, a idade. Assim, devagar, com sorrisos melífluos que, depois, se revelaram sarcásticos e maldosos, maliciosos, num desvão de caráter comum entre os intrusos. É da cepa desse vírus. Os restaurantes antes frequentados pelos amigos. O DNA com a experimentação das criações do sushiman, em incontáveis noites de sábado. O grupo que se encontrava religiosamente a cada semana, a destilar ironia sofisticada, comentários cheios de conhecimento, gostos consolidados com capacidade e conteúdo. Nada de bracinhos levantados balançando de um lado para o outro. Nada de U-hu-hu-hu em lugar de letras de música que diziam o que a poesia desejava. Nada de filmes que eram esquecidos dois minutos depois da sessão. Não. Da literatura à música, da economia à política, dos costumes à História. Comportamento e opinião. Memória e vivência. Havia de um tudo. E o grupo sobejava criatividade, bom humor, graça e leveza. Sem estereótipos. Sem lugares comuns. Sem chavões e modelitos desgastados e vazios, pífios manequins de montra. Os anos que passam. Três endereços na capital federal. Quatro endereços na capital das alterosas. As caminhadas a pé pela Bahia, com direito a intromissão em casamento em Lourdes. O Lulu em sábados à noite, de antes. Com os intrusos, um restaurante – até interessante – em Santa Tereza. As idas e vindas. As festas e as conversas demoradas com marijuana, cerveja, cigarro e saudades de tempos outros. Parece que nos 70 tudo era mais fácil. A impressão é de que os anos 80 foram bem mais divertidos. Sem denegar a evidente diferença e suas mais diversas manifestações. Mas nada disso se compara ao furor iconoclasta do clube dos intrusos. Todos da mesma laia. Todos arrotando riqueza e poder. Todos regurgitando verdades absolutas e, por isso mesmo, vazios sofismáticos, a dizerem nada. Uma do interior como ele. Outra da capital. Um outro também da capital. Este não podia falar. Não tinha o que falar. Cérebro de ameba gripada. O corpo obedecendo aos padrões, as conversas sobre suplementos e rotina de “treinamento”. De quê? Não sabia dizer. Não podia dizer. Não tinha capacidade de dizer. Então veio o vice presidente do clube. Veio de lá, da terra da zangada. Do lugar que tem mais antropólogos por milímetro quadrado na face da terra. A impressão que se tem é que basicamente 95% da população “faz” antropologia lá. Estudar antropologia não dá status. Assim mesmo, em minúsculas. Um lugar em que as pessoas acreditam que só existe um continente que vale a pena considerar como “cultura”, a África. Pouco se me dá se disserem que isso é preconceito. Não é. Podem até dizer que é racismo. Não é. É simplesmente a constatação triste de fatos que conseguiram, pela intrusão, destruir trinta anos de uma história que teria muito a contar. Os registros se perderam. Não mais a possibilidade de recuperação. O elo que ligava as duas pontas da corrente se perdeu. Definitivamente. E o clube dos intrusos continua a babujar-se nos próprios miasmas. O comportamento frenético de quem acredita que não existe mais nada que tenha sentido, então. O conjunto de baboseiras que chamam de vida. Sem perder a verve de intrusos. Inseminar-se insidiosamente, pelas beiradas. Usar, com vilania, as armas mais pueris, para um contaminação nefasta e definitiva. Nenhum do grupo de antes conseguiu permanecer em ambiente tão pegajoso, sujo, engordurado e malcheiroso. Sem graça. Combinação perfeita para o vociferar de vozes intrusas. Um único sobrevivente a tentar permanecer, não incólume – por impossível –, mas a hastear a bandeira da memória. Esta que foi aos poucos perdida, entre tosse, febre e complicações outras. A explicação inalcançável e o “poder” da intrusão. Impedir o compartilhamento da perda com quem de direito. O supra sumo da baixeza: falta de qualquer resquício de caráter. Vilania. Caminho perfeito, trilhado por um par de pés de chapa, com os calcanhares mal cuidados, a soerguer um paquiderme de nadas.

22
Ago20

Mais um convite

Foureaux

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Trilogia. Substantivo feminino. Na Grécia antiga, nome dado a um poema dramático composto de três tragédias que deviam ser representadas juntas. Por extensão de sentido, quando se trata de uma narrativa, geralmente longa, convencionalmente chamada de romance, é o nome que se dá ao conjunto de três obras, unidas entre si por temática comum. Bom. Na acepção clássica, a ideia de representação em conjunto traz para os dias que correm, por exemplo plausível, a ideia da literatura “em série” dos três romances. É o que aconteceu comigo. Acabo de ler três livros de um mesmo autor. Uma trilogia. O nome dele? João Tordo. Um jovem escritor português em ascendente carreira literária na península. Os títulos das três obras que acabo de ler são: O luto de Elias Gro, O paraíso segundo Lars D. e O deslumbre de Cecilia Fluss. Não sou eu quem diz que se trata de uma trilogia. Não fui quem leu os três romances como uma trilogia. O próprio autor concebe o conjunto como tal: “Comecei logo com a ideia de que seria uma trilogia (...) Tinha deixado o personagem Lars um bocado em suspenso no primeiro livro e senti que a história ainda não tinha sido contada, mas aqui surge reinventada” (A íntegra da entrevista pode ser encontrada na seguinte ligação: (https://observador.pt/2015/11/04/o-luto-o-paraiso-e-a-trilogia-de-joao-tordo/). Os três livros são interessantíssimos. Como o próprio autor afirma, são independentes, apesar de constituírem um fio narrativo contínuo. Menos poético que meu xará português, José Luis Peixoto, mas não menos cativante, João Tordo pega o leitor a contrapelo de sua preguiça. A preguiça pode ser do leito, que fique bem claro. A contrapelo, porque estes três livros fazem parte de um conjunto que reúne obras diversas, de autores distintos, em momentos variados da Literatura ocidental. Um conjunto peculiar. Peculiar porque faz com que o leitor não tenha vontade de parar de ler, ainda que o faça, por circunstância. O “menos poético”, aqui, não deve ser tomado em sentido pejorativo. Longe disso. O fato é que p xará é, por natureza – e a responsabilidade por esta afirmação é total e absolutamente minha – um poeta. Suas narrativas envolvem o cérebro e o coração do leitor. A aura de uma linguagem plasticamente esculpida pela trama narrativa seduz e enleia o leitor. A poesia vence, ainda que, na forma, narre uma história, bem ao gosto dos relatos congêneres mais tradicionais. Esta é a única diferença. A preocupação de João Tordo, a meu ver, não deixa de ser com a plasticidade da palavra. Longe disso. No entanto, sua índole, diversa daquela de meu xará, seduz pela fluidez com que leva o leitor pelas sendas narrativas que desvenda. Sua linguagem flui, etérea, entre os pilares robustos e consistentes que sustentam a narração. Neste caso específico, as personagens passeiam entre os três livros. Elas trocam de desempenho. Fazem coisas diferentes, são pessoas e coisas diferentes. Uma personagem,, por exemplo, numa romance é um escritor, no outro é um cachorro. Há uma espécie de sequência genética que povoa o dramatis personae da trilogia. Isso não fica. Não fica pedante. Não. Absolutamente não. A delícia desta trilogia é que ela leva o leitor a pensar sobre a morte, sobre o ato de escrever, sobre as vicissitudes que as relações interpessoais constroem e impõem a todo mundo e a qualquer um. Esta marca é de João Tordo. O pensamento que decorre da leitura está longe de ser pesado, pedante. Chega a ser divertido. Há, em alguns trechos, referência – eu ouso dizer explícita, mas o faço como leitor, sem autorização do autor, com o pedido de desculpas pela redundância – a José Saramago. Especificamente, alguns pequeno diálogo marcados apenas por vírgulas. Mas isso é um detalhe que só faz consolidar a personalíssima escrita de João Tordo. O convite está feito. Recebeu-0, quem prestou atenção. Aceitá-lo-á, quem assim o quiser!

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Foureaux

A massa de ar cinzento e miasmático que o sonho movimenta no inconsciente não pode ser medida. Detectada, percebida, relatada, mas não medida. A confusão se faz ou se desfaz em ainda assim, nada muda nesse sofisma. Ou seria um axioma? A fidelidade e a eternidade, para além da homofonia não resguardam a mesma durabilidade. Trinta anos. Um casamento de amor, nos moldes sociais mais circunscritos à tradição e aos costumes. Pai farmacêutico, mãe cozinheira. Os outros dois genitores, desconhecidos. Um casamento tradicional. Dois filhos. A profissão da mãe e do pai conjugadas na composição de mais um lar. A construção de uma casa como sonho impossível, trasladado para o financiamento. O lar constituído de maneira sólida e conjugada. Dois filhos. Trinta anos e dormindo abraçados. O elogio doceiro do corpo dela. O abraço noturno que satisfaz, gratifica e fortalece. Trinta anos de idas e vindas. O ritmo diário das semanas profissionais. A cidade do interior. A estação ferroviária da capital. O rito de consumação de uma cumplicidade fomentada pelo amor, pela amizade, pelo compromisso comum. Conjugação de afetos e confianças. Até prova em contrário, incontestáveis. Trinta anos. As chatices de um. O ridículo de outro. As dúvidas quanto à educação dos filhos. A escola, os princípios, o comportamento que se reproduz numa espiral de verdade moral, por princípio. Uma história comum que jamais prenunciaria surpresas desagradáveis, até prova em contrário. Todos os dia correndo segundo um planejamento que se matinha no mesmo ritmo. A organização da casa que não deixava de ser praticamente um exemplo. As histórias familiares recontada incansável e eternamente nas fotografias expostas no buffet. A escada que divide os espaços domésticos. A biblioteca que coleciona experiência, gosto e fantasia. O tempo que passa no cotidiano de mais uma família. O jardim e a horta mantendo relações não descritas por afetos conjugados. O casamento do segundo filho. A formatura e a mudança para o interior quebrando o ritmo que sempre foi igual. Tédio? A saída de uma filha. A busca de realização de sonhos não previstos. A determinação de diferenças individuais inerentes ao cotidiano do sujeito em família. Diferença de opiniões, nada que ultrapasse o perímetro da conhecida e reconhecida normalidade: o âmbito das convenções arraigadas. A família que se reduz a dois e a continuidade do diário movimento as existência comum. O começo de tudo, de novo, outra vez. Trinta anos. Não há como não pensar nos versos de um poeta conterrâneo: “No meio do caminho tinha uma pedra / Tinha uma pedra no meio do caminho / Tinha uma pedra / No meio do caminho tinha uma pedra / Nunca me esquecerei desse acontecimento / Na vida de minhas retinas tão fatigadas / Nunca me esquecerei que no meio do caminho / Tinha uma pedra / Tinha uma pedra no meio do caminho / No meio do caminho tinha uma pedra.” A pedra se desenha e formas múltiplas. Cronos não antecipa o momento. O destino, entidade incorpórea não cede a caprichos outros e decide, sozinho, o momento em que tudo deve acontecer. Do nada, de repente. Inopinadamente. Um dia como qualquer outro pode ser só mais um como qualquer, Persiste, inerente, a possibilidade ser outro dia, não igual a qualquer outro, mas outro dia. Um dia, de repente, do nada. O que é comum se repete, por um tempo. Alguns passos já conhecidos que não se questionam. marcação teatral que não é preciso mais recordar. Os passos se dão, as falas se repetem. Nada de errado com isso. Certo cansaço... pode ser O café a fazer, na espera do retorno do outro. Água, pó, açúcar. As xícaras na mesa sobre a toalha puída. O silêncio, acalanto: domus. Num relance, as malas prontas. O vulto no portal. Nenhuma palavra. O fim de uma história. Segundo capítulo que começa. A descobertas de detalhes obscurecidos pela confiança partilhada. O despertar de afetos ocultos, não experimentados. O completo silêncio, Por quê? Depois de vinte anos, não mais dormir abraçado, não mais o cheiro do outro, não mais a doméstica repetição do simples, corriqueiro, afetivo e banal. Não mais. O sumiço. A falta de explicações. A notícia por terceiros de mais um membro na família. A porta na cara: tentativa de visita e busca de reconciliação, uma explicação mínima, quem sabe. O corte de todos os projetos em andamento. Surto e choque. A desinformação e a hostil conivência dos outros que sabiam de tudo. abem onde o filho está, o que faz, com quem está. A família do filho que não se deu a conhecer. O proibitivo aviso de impossibilidade de contato, a inexplicabilidade do que não se conhece. Por quê? Vinte anos para tanto. Susto e choque não se resolvem como comprimido efervescente. O pó não desmancha. Os cacos. Os vinte anos rasgados como jornal velho. Por quê?

 

17
Ago20

30

Foureaux

Sancho Pança e Dom quixote. Inversão improvável, possível e nada gratuita. O gordo comezinho e o magro delirante. Monstros que se movimentam com o vento, moinhos do inconsciente. Toda a sorte de invenção e especulação: capacidade de reverter um processo corrente e demarcar um ponto para “um antes” e “um depois”. Não é apenas Literatura. A vida cotidiana também pode se representar por um par como este. Desde o começo, ainda que latente, esta possibilidade estava lá. As três meninas ainda faziam a prova. E o candidato tomava café com o chefe, em sua sala. “Não posso. O que vão pensar? Estou fazendo um concurso. Não posso!” O tempo passa. “pode sim” Eu sou o chefe!”. A convivência, para o bem e para o mal, estabelece um estágio adiante, o da colaboração, ainda que contra o resto. A delirante sanha dos descontentes e mal aceitos. Quase unanimidade. O fato de não obedecer aos princípios organizacionais mais elementares. A carona de todo dia, durante os primeiros anos. A amizade crescente. A espera da esposa de volta do Rio. A recuperação lá de baixo. As rixas com a coordenadora, passado quase revelado. A mesma origem, o encaminhamento diferente. Ciúme da francofonia alheia? Rancor por conta da burguesia letrada? De uma, as duas. Indecisão. O tempo passa. A evolução, nem um pouco natural da aceitação. Ciúme? A recuperação lá de baixo. A comissão editorial,  comitê de pesquisa, os eventos por convite. Ciúme? A amizade ratificada com a chegada da esposa. As quintas-feiras com Mirta Lady. Nome pronunciado sem sotaque. O pão de queijo, o café, o uísque: as confissões semanais em tertúlias que aprofundam laços e constroem projetos. Continuidade. O tempo passa. Fernando Pessoa morreu em 1935. No ano seguinte, pela pena de um escritor muito interessante, morre um médico brasileiro chamado Ricardo Reis, que se encontra com o fantasma do ortônimo. A celebração da arte no evento em homenagem aos 60 anos de morte do poeta. O marco inaugural da nova fase. Lá embaixo, mais trabalho, a vice coordenação, contra a vontade do chefe, mas não é ele quem manda. A nova comissão criada para diminuir burocracia. A continuação do comitê de pesquisa e do conselho editorial. Muito trabalho e a chanchada tomou conta da organização do evento. Presente de grego. Os quatro dossiês para as agências. Depois do intervalo das férias, os dossiês desfeitos e jogados na gaveta. Ciúme? A chanchada tomou corpo. Jantares temáticos, shows de fado, passeios, vernissage, lançamento de livro. Ultimatum. Ciúme, sem dúvida. Faca na bora, pé na porta: ou é evento ou e chanchada. No segundo caso. nada feito. Constrangimento. A trabalheira da organização. As caras e as bocas. A continuidade da carona, de quando em vez. A viagem a João Pessoa. “Não vai”. A viagem rápida, dois dias. Depois, a carona às vésperas do evento. As caras e as bocas. Ciúme? Sucesso absoluto no evento. Três dias trancado dentro de casa: descanso necessário. O retorno ao corriqueiro da banalidade repetida. A mesma empáfia. A tarde inesperada. A gritaria no corredor e a ignorância do assunto. Quer fazer uma informação circular, chame os alunos e peça-lhes discrição e segredo. Antes do final do dia, todo mundo sabe de tudo, em detalhes, com acréscimos. O jornalzinho: Sancho Pança e Dom Quixote, em papeis trocados. A fúria. A acusação de desvio de dinheiro, de roubo para uma viagem pessoal. A ameaça de processo. A confusão dos berros com a decana no corredor, todo mundo vendo e ouvindo. escândalo. Ciúme? Tudo esboroa. Tudo que é sólido se desmancha no ar...A decadência, o fim. A amizade da esposa como herança. A decisão e o escândalo: garota de recados. D. Irene e seu tique nervoso: o chefe mandou tirar suas coisas da sala. “Mandou? Vai ter que me dizer na lata.” O final de semana do acidente doméstico com a consequente licença médica. A decisão. A romaria de pares. Os pedidos, as súplicas. Choro e gritaria. Discussão. Chega. A demissão três semanas depois. A empáfia. “Veja que estou sendo magnânimo. Vamos colocar uma pedra sobre o assunto e deixar tudo isso para trás.” A decisão tomada: demissão: auto exoneração. Nuvens cinzentas e pesadas no ar por algumas semanas. O tempo passa. Inesperadamente, o reencontro. Restaurante cheio, pessoas conhecidas a celebrar o reencontro. Alegria, risadas, gritaria e muito chope. O grito. O nome. A cena patética. O porre que não segura o extravasamento constrangedor: “Eu te amo! Você sabe que eu te amo”. O abraço e as lágrimas na mistura etílica das rédeas soltas. O constrangimento. Revelação. O tempo passa. A esposa se vai. Volta para sua cidade natal. O fim de tudo, Lembranças que se apagam. A retomada do contato, agora virtual. A doença. O pedido para um comentário. O tempo passa. Ainda há lacunas nas possíveis explicações.

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